Correio do Minho

Braga, segunda-feira

"Temos de saber construir um futuro com menos gente!

É muito difícil dizer adeus!...

Ideias

2018-06-24 às 06h00

Manuel Barros

A “erosão do interior do país” é um dos mais penalizadores paradoxos, que o país vive com uma intensidade crescente, na complexa equação da coesão social e na definição do caminho para o desenvolvimento integrado do território. Um problema que está identificado, e abre perspetivas preocupantes na evolução demográfica, que na perspetiva da geógrafa e investigadora Teresa Sá Marques, coordenadora do Programa Nacional de Políticas do Ordenamento do Território, “temos de saber construir um futuro com menos gente, e criar um discurso de desenvolvimento para um território com outros recursos”.
Uma realidade, com implicações imprevisíveis para as gerações futuras. Uma incerteza, que se tem vindo a agravar de forma preocupante, com os jovens a perderem o contacto com as suas terras de origens. Territórios que não conseguem inverter o ciclo negativo da demografia. Agravada pela incapacidade de atrair e fixar a população jovem e qualificada. Perdendo-se desta forma tantos recursos, depois de se ter investido muito em infraestruturas, comunicações e na promoção da qualidade de vida.

Neste sentido, o estudo alerta para a necessidade de majorar apoios a projetos empresariais, que promovam emprego de qualidade, designadamente, em matéria de conciliação do trabalho com a vida privada e de promoção da igualdade de oportunidades, que passam pela implementação de programas de promoção da igualdade de género, da flexibilidade na organização dos tempos de trabalho, da organização serviços de apoio e a criação de incentivos à contratação de trabalhadores jovens mais qualificados.

Um estudo supervisionado por esta investigadora da Universidade do Porto, que resulta da vontade de um consórcio de entidades de Portugal e de Espanha. Aponta algumas medidas de reforço da atratividade destes territórios, mas os seus autores assumem que, mais do que inverter o processo demográfico, é fundamental ajustar a economia local e nacional a um país com menos gente. Alertando para os riscos demográficos, associados à quebra das taxas de fecundidade e ao envelhecimento da população, que estão mais vincados nos territórios fronteiriços de Portugal e de Espanha.

No mesmo contexto, o Eurostat divulgou entretanto, uma previsão que aponta para uma diminuição de um quarto da população a viver em Portugal, nos próximos 50 anos. Um resultado do trabalho desenvolvido pela equipa de José Paulo Queiroz, em relação aos territórios que transfronteiriços, mostra que as tendências nacionais de decréscimo populacional, envelhecimento, diminuição de ativos e quebra das taxas de fecundidade, têm uma expressão ainda mais preocupante nestes territórios, do que nos restantes espaços do interior. A perda de população e o envelhecimento são mais acentuados do que no restante território, nos dois países. Acrescentando desta forma mais informação e conhecimento relevantes, para a formulação de propostas de solução dos problemas e desafios dos territórios de baixa densidade.

Dados sustentados pelos resultados de um projeto apoiado pelo Programa Interreg V, desenvolvido por um consórcio que reuniu as juntas da Galiza, Castela e Leão e Estremadura, e das NUT III portuguesas de fronteira de Portugal, onde vivem cerca de 2,2 milhões pessoas, que correspondem a 22% da população nacional, enquanto na nossa vizinha Espanha, num território bem mais amplo vivem 3,1 milhões de pessoas, que correspondem a apenas 7% da população total. Destacando-se a Comunidade Intermunicipal do Alto Minho e do Cávado, a que se juntaram a Câmara de Braga e a Universidade do Porto, num trabalho que realçou esta disparidade entre os dois lados da fronteira.
Uma realidade que se tem vindo a aprofundar, assumindo que as políticas de natalidade terão poucos ou nenhuns efeitos em territórios, onde já há poucas mulheres em idade fértil. A investigadora, que nos últimos anos esteve a coordenar o Programa Nacional de Políticas do Ordenamento do Território, refere que é preciso trabalhar as condições de atratividade destes espaços, e encontrar formas de garantir qualidade de vida para as pessoas, que permanecem. Assegurando a fixação e a atração de pessoas qualificadas, com capacidade de responder de uma forma mais eficaz aos problemas da economia destas regiões, que continua muito sustentada em atividades com grande exigência de mão-de- obra, que estão a sofrer um decréscimo assinalável de população ativa.
Uma iniciativa, que a Universidade do Porto está desenvolver em todo o país, através da divulgação das oportunidades de emprego e de negócio, nos seus territórios de origem dos seus estudantes. Um programa que decorre da perceção da existência de dificuldades de captação de quadros qualificados, atraídos, como o resto da população para os grandes centros urbanos. Como muito bem se salienta nesta análise, as Universidades têm de continuar a aprofundar a sua relação com as diferentes comunidades do país, sobretudo com as mais carenciadas.
Colocando novas propostas na agenda pública, numa atitude que contrarie a resistência à mudança, de forma a promover o combate às desigualdades educativas e sociais, implementando oportunidades formativas para as pessoas que, de outra forma, nunca frequentariam as suas instituições. Manuel Fontes de Carvalho, Pró-reitor da Universidade do Porto, considera nesta perspetiva que as universidades têm de apoiar estes municípios, a encontrar soluções para a fixação de jovens com formação superior, nos seus territórios.
Só assim, será possível construir um futuro, com menos gente. Desenhando cenários prospetivos, para a consolidação de uma rede posta ao serviço do desenvolvimento cultural, social e económico do país e das suas diversas regiões. Com especial atenção às regiões do interior e transfronteiriças, com menor densidade populacional, e criar um novo paradigma de desenvolvimento, para um território com os recursos que estão por explorar.
As potencialidades de desenvolvimento destes territórios é enorme. Escondem riquezas que não estão devidamente exploradas, que o país não pode desprezar e virar as costas. Sendo uno na sua diversidade, não pode esquecer nenhuma das suas parcelas, para ajudar as Universidades e os Institutos Politécnicos no apoio ao desenvolvimento integrado do território, através da implementação de linhas de financiamento para incentivar a sua intervenção, no quadro da sua terceira missão das Instituições de Ensino Superior.

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