Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Teatro-Cinema de Fafe como espaço de resistência ao fascismo

O maior desafio dos 50 anos de Democracia

Teatro-Cinema de Fafe  como espaço de resistência ao fascismo

Ideias

2024-01-14 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

Arrancaram esta semana, mais propriamente na quarta-feira, 10 de Janeiro, com uma sessão solene e um espectáculo musical com o fadista Camané, as comemorações dos 100 anos do Teatro-Cinema de Fafe, que se vão prolongar até final do ano com uma programação de elevado nível, diversificada, abrangente e eclética, para os mais variados públicos.
A construção do belo imóvel deve-se ao ilustre fafense José Summavielle Soares, advogado, industrial, presidente da Câmara na Primeira República e Provedor da Santa Casa da Misericórdia, residente na casa fronteira, tendo a sua inauguração apoteótica ocorrido em 10 de Janeiro de 1924, com a apresentação da peça “O Grande Amor”, pela companhia dramática lisboeta de Aura Abranches.
A sua fachada, de decoração invulgar e certamente única na região, é de belíssimo recorte. Pintada em tom rosa e com desenhos de cupidos alados, como que a simbolizar o amor às artes, tem a data de 1923, abaixo da designação “Teatro-Cinema”, que se refere ao acabamento das obras.
A estrutura e os motivos decorativos interiores da mítica sala, foram comparados aos mais belos teatros do Norte, designadamente ao Teatro-Circo de Braga.
As melhores companhias de teatro do país da primeira metade do século XX por aqui passaram. Aura Abranches no dia da inauguração, Lucília Simões, Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro, Maria Matos, Ilda Stichini, Chaby Pinheiro, Ester Leão, Cremilda de Oliveira, Rafael Marques, Palmira Bastos, Berta Bívar e Laura Alves, entre outras.
Escassos três meses após a sua inauguração, em Abril, também já exibia cinema, naturalmente mudo.
A partir daí, o Teatro-Cinema apresentou inúmeros espectáculos de teatro, música e variedades e milhares de filmes, além de manifestações de diversa índole, bailes da sociedade fafense mais ilustrada e outras sessões de cultura e recreio, sobretudo no sumptuoso salão nobre. Até ao seu encerramento ao público em 1981, por falta de condições de segurança, dado o avançado estado de degradação. Fechado durante quase três décadas, foi adquirido pela Camara Municipal em 2001, reabrindo em 25 de abril de 2009, devidamente restaurado no âmbito da empreitada de requalificação, recuperação e ampliação, bem como dotado das mais modernas condições de funcionamento e de utilização.
Além da sua função de entretenimento, cultura, educação e diversão, como casa de espectáculos e de festas sociais da mais diversa índole, importa-nos, desta feita, evidenciar uma faceta menos conhecida desta icónica sala fafense, qual seja a da sua utilização no âmbito do que podemos chamar uma cartografia da resistência ao fascismo, integrando os seus locais mais emblemáticos nesta cidade.
Poucos anos após a inauguração do recuperado espaço, em 1924, a “política” entrou no Teatro-Cinema, na forma de sessões de esclarecimento e de comícios, que se repetiriam nas décadas seguintes.
Estamos a falar de iniciativas basicamente desafectas ao regime vigente a partir de 1926, pois que o proprietário, José Summavielle Soares, indefectível republicano e democrata, cedo demonstrou a ideia de que, sendo a casa sua, apenas deixaria lá entrar quem ele muito bem quisesse. Ou seja, não ia ceder a sua casa para, em sessões de propaganda, dizerem mal de si e das convicções que professava.
Ao longo dos 50 anos que vigoraram até ao 25 de Abril de 1974, nunca ali se realizaram comícios da Ditadura, do Estado Novo e do Estado Corporativo, mas sempre nela tiveram lugar acções de propaganda da chamada Oposição Democrática.
A primeira ocorreu três anos após a instauração da Ditadura, em 1929, numa sessão dedicada à propaganda republicana e ao Major Miguel Ferreira, ex-deputado no Parlamento republicano e figura referencial da resistência à ditadura, sessão (vigiada pela polícia bracarense) que contou, entre outros, com a presença do professor Emídio Guerreiro.
Seguiu-se uma sessão de propaganda da República, a propósito do 40º aniversário do 31 de Janeiro de 1891, considerada a primeira tentativa para a instauração do regime republicano em Portugal. A comemoração da histórica data consistiu numa vibrante sessão que contou com a presença de importantes vultos da 1ª República, como foi o caso do filósofo Leonardo Coimbra, que chegou a ser Ministro da Instrução. Foi uma verdadeira manifestação de fé na República e nos seus valores, numa altura em que estávamos já em plena Ditadura, por isso, se pode considerar uma tomada de posição forte contra o regime vigente.
Entretanto, o Teatro-Cinema iria ser encerrado compulsivamente em finais de 1931 e durante cerca de um ano, pelo facto de o seu proprietário não o ter cedido para uma actividade de apoio à Ditadura vigente. O Administrador do Concelho solicitou o Teatro para um comício, ao que José Summavielle Soares respondeu negativamente, pretextando: “sendo, como sou, adversário da ditadura, não posso contribuir de forma alguma para a sua propaganda. (…) A satisfação do pedido de V. Excia seria indigna do meu carácter e uma verdadeira afronta aos republicanos desta terra”.
A “vingança” não se fez esperar e o Administrador ordenou o encerramento do Teatro, em Dezembro, alegando falta de condições de segurança. O Teatro reabriria ao público um ano depois.
O mesmo sucederia posteriormente aquando das eleições presidenciais a que concorreram os generais Norton de Matos (1949) e Humberto Delgado (1958), ou as eleições legislativas a que concorreram a CEUD e a CDE em 1969.
Sistematicamente, a concelhia da União Nacional solicitava a cedência da sala para acções propagandísticas do regime, e invariavelmente lhe era recusada, porque contrariava os princípios democráticos e oposicionistas do seu proprietário, adversário irredutível do regime vigente, bem como os sentimentos liberais e democráticos do povo de Fafe.
Em contrapartida aqui se realizaram imponentes e participados comícios de apoio às candidaturas da oposição, em períodos eleitorais, mais ou menos fraudulentos, como se sabe, com a participação de nomes sonantes do “reviralho” e da resistência como Mariano Felgueiras, Hélder Ribeiro, Carlos Cal Brandão, ou Artur Santos Silva, e, mais recentemente, Marinho Dias, Santos Simões, Lino Lima e Eduardo Ribeiro, da parte dos chamados “Democratas de Braga”.
Já após o 25 de Abril de 1974, o Teatro-Cinema iria ser palco da grande festa do 1º de Maio, Dia do Trabalhador, pela primeira vez celebrado em Liberdade. Porém, tantas centenas de pessoas acorreram à festa que a sala não chegou para as albergar e assim tiveram de ir para as ruas da então vila, para comemorar a importante data.

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