Correio do Minho

Braga, sábado

Também tu tens estrelas e aviões

Escrever e falar bem Português

Conta o Leitor

2012-08-26 às 06h00

Escritor

Por Isa Meireles

O primeiro mergulho nunca é fácil. Ficámos ali, na berma à espera que a coragem venha até nós. Contamos até três e a meio esquecemos que o três chega rápido, e parámos. Metemos um pé mais à frente, mas recuámos. Até que pensamos que agora tem que ser, mas não é. E pensámos em voltar atrás. Em nem sequer tentar.
‘‘Podemos morrer afogados’’; Sim. Também podemos morrer engasgados com uma torrada e não é por isso que deixámos de tomar o pequeno-almoço.
É então que dizemos ‘’É agora’’. Mas continua a não ser. Adquirimos a dita preguiça, sentamos o nosso corpo, já mole e caído, naquela berma, e não vamos mais longe do que isso. Dizemos a todos os outros que demos tudo por tudo, que corremos, saltamos; Dizemos que trepamos as árvores e vimos monstros no fundo. Mas ali, sozinhos naquela berma, não vamos muito mais longe do que isso. Não vamos sequer mais longe do que a distância entre os nossos dedos dos pés.
É aí que começa a sociedade: Em sabermos a realidade e o que a nossa voz ecoa. As pessoas dizem aos outros mundos e fundos, o que dizem para si, é sempre suficiente. Sentar-se é suficiente. Desistir é suficiente. Para os outros? Vimos o que ninguém viu, fizemos o que nunca ninguém fez, elaboramos obras primas e lutámos contra a água, que continha monstros marinhos, daqueles que vimos num filme sobre o lago Ness da Escócia.
E rio-me de ver toda aquela gente sozinha, parede com parede, na berma da água. Ouvimos os relatos e quase que nos aventuramos a comprar uma medalha de força, coragem, garra. E pensámos que nós ao lado deles, somos uns cobardes. Como é que nunca tivemos um monstro gigante para vencer? E simplesmente o medo de entrar na água? Que infelizes que somos nós, que só temos medo.
Mas a verdade é que o primeiro mergulho é a entrada na vida. É o cair das canhotas sobre a terra firme; O estalar do fósforo que incendeia a pinha (sim, a mesma pinha que colheste enquanto pisavas a terra fértil do monte abandonado); O fervilhar do chocolate quente; A mesma entrada na vida como o fogo que estala nos céus a cada dia 1 de Janeiro. A verdade é que o primeiro mergulho tem muitas histórias e só nós conhecemos a nossa.
A verdade, não a única, mas a de muitas realidades, é que não existem monstros verdadeiros, e que o único monstro que existe é a mais elaborada metáfora para o medo. Aquele medo que nos faz recuar, sentar, calar, chorar num silêncio abrupto. O mesmo medo que temos quando nos lançam por uma falésia e nos dizem ‘‘Voa’’. E nós pensamos e chegamos à conclusão que no nosso manual de instruções não vinha nenhuma sub-categoria que trazia asas, ou capacetes, ou para-quedas incorporados. É esse o nosso problema: Somos demasiado racionais. Demasiado rectos. Demasiado capazes. E de tantas capacidades, somos vulneráveis ao primeiro mergulho. Ao primeiro passo. Ao primeiro choro. Ao primeiro grito. À primeira lágrima. Ao primeiro sorriso.
Desconfiamos. Em nós existem mil coisas presas por um fio e uma mola: Medos. Segredos. Passos no escuro (e como é escuro o nosso pensamento).
Quantas vezes tentámos à luz da escuridão mergulhar? Nenhumas.
Quantas vezes pensámos antes de falar? Raras.
Quantas vezes achámos que não há volta a dar? Muitas.
E pensamos tantas vezes que quando largámos os pés do chão e vamos no ar, num impasse de segundo, pensámos ‘‘agora já está, a água vai estar gelada, posso morrer, ficar aqui, desaparecer, chorar, congelar’’. E quando entrámos na água, nada mais é que água. E o primeiro mergulho acabou. Agora vão ser só mais uma data deles repetidos. Mais uma data de vivências iguais.
Será que é assim? Será que nunca poderemos sentir nada como se fosse uma inauguração de um espaço novo na nossa casa? Como se fossemos nós, novos, a começar do zero?
Por vezes, somos demasiado inconscientes para desfrutar daquele mergulho.
Da mesma forma que o somos para aproveitar as coisas bonitas da vida. E tu? Quantas vezes largaste tudo e foste à janela? Há estrelas lá fora. E hoje, pode ser a primeira vez que as observas em condições. Tal como pode ser a primeira vez que te conheças em condições. O tempo não significa nada. Os mergulhos que deste não te tornam mais forte. O que te torna mais forte é aquilo que pões de ti nas coisas. Aquilo que pões de ti nas coisas que te rodeiam e que por vezes, não são coisas, não são tuas, não são nadas. Nem um monstro enormíssimo que te dá boas tardes de café são.
Para ti. Mas também tu tens estrelas e aviões.

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