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Super-Homem

Assim-assim, ou assim, sim?

Super-Homem

Ideias

2019-03-25 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

1. “Búzi, Moçambique, 24 mar (Lusa) - Hélder Fazenda, 37 anos, professor de matemática, implora por um espaço para dois sacos de alimentos numa das poucas embarcações artesanais que se arisca contra a maré do rio Búzi, em Moçambique. O ciclone Idai ditou que só lhe restasse uma 't-shirt' com 'S' maiúsculo do Super-Homem para vestir, mas se calhar ajusta-se à missão de hoje: regressar da Beira com mantimentos para a família, presa pelas águas na vila de Búzi.”
A semana terminou com (mais uma) uma tragédia; uma tragédia que assolou o continente sul africano, em especial Moçambique, Malawi e Zimbabwe. São dramas como este, vivido pelo Hélder, que os nossos irmãos moçambicanos vivem atualmente. Não há como evitar a enorme angústia de saber que milhares de pessoas estão a passar tantas necessidades, estão a mercê, com as vidas e a saúde em risco. Isto para não falar das centenas de mortos, números assustadores que certamente aumentarão nos próximos dias. Um continente e países já tão pobres, terras sofridas, ao longo dos tempos, sacrificadas com fome, guerras e desastres naturais. Repito, não há como deixar de sentir profunda solidariedade.
É verdade que já todos nós nos habituamos às tragédias, afinal elas parecem perseguir quem é mais fraco. Incêndios, cheias, ciclones. Agora foi Moçambique - mais uma, anotou, certamente, o leitor, o ouvinte, o telespectador. Tornou-se banal. Assim como banal se tornou o sofrimento, a fome e a morte. E quando essa tragédia nos bater à porta?
2. Apesar dos números crescentes de fenómenos naturais extremos, muitos especialistas ainda receiam traçar uma ligação direta com as mudanças no clima. Apesar de todos reconhecerem que a mudança climática está a provocar o aquecimento das águas da superfície, o que, por sua vez, aumenta a energia dos ciclones. A pergunta que se faz é até quando essa negação vai emperrando uma negociação mais contundente sobre as reduções das emissões de Gases de Efeito Estufa, ainda apontados como principal motivo das alterações climáticas. Parece cada vez mais notória a urgência de medidas concretas contra o aquecimento global para evitar tragédias como a que se abateu sobre Moçambique.
Donald Trump, líder do país mais poderoso do mundo, não acredita no aquecimento global. O presidente americano acredita que é tudo uma invenção, para fragilizar a economia americana. Desde que foi eleito, tem-se ocupado em desmantelar a herança do seu antecessor: rasgou os acordos de Paris, cortou apoios às energias limpas, deu carta-branca à exploração de carvão e petróleo e, dias antes dos furacões Irma e Harvey, assinou uma ordem executiva que repudiou legislação de Barack Obama sobre os requisitos obrigatórios nas construções no que respeita a proteção contra cheias.
A frequência dos furacões não está diretamente ligada às alterações climáticas. Mas a sua potência e intensidade está, tal como estão muitos outros fenómenos extremos. “Quem nega as alterações climáticas será julgado pela História” – a frase é do Papa Francisco, e aproveito-me dela para apelidar de criminosa a inação do mundo desenvolvido nesta matéria, sendo que são os povos mais pobres quem mais sofre. São questões tão importantes para a Humanidade; não podem esbarrar no bloqueio de algum(s) poderoso(s)!
Olhemos para o nosso país: a primavera chegou; contudo as temperaturas são elevadas, quase parece verão – ontem tomei banho no mar de Esposende! -, o calor extremo promete repetir-se em 2019. A previsão é inclusivamente de um ano ainda mais quente. Os incêndios voltarão a devastar o país, mas também chuva forte, vento ou tornados causarão prejuízos um pouco por todo o país. Quem esqueceu o que aconteceu há 5 meses atrás com a passagem por Portugal do furacão Leslie? Uma tempestade brutal que inicialmente passaria pelos Açores, mas que de repente virou forças para o continente, semeando o pânico por onde passou, sobretudo na zona centro, entre Figueira da Foz e Coimbra. Mas não foi só e Portugal, a Europa também viveu fenómenos raros: o nevão em Barcelona, as chuvas torrenciais que causaram mortes em Maiorca, países como Rússia, Suécia, Alemanha ou Reino Unido tiveram ondas de calor muito pouco habituais.
David Attenborough, o famoso naturalista britânico, afirmou mesmo que as alterações climáticas são “a maior ameaça à Humanidade em milhares de anos; estamos a assistir a um desastre à escala global, provocado pelo homem”.
Chegou a hora de agirmos de vez para salvar o planeta. Não somente por nós, mas também pelas futuras gerações. Para que elas também possam conhecer um dia o planeta como o recebemos de gerações anteriores. Embora isso seja cada vez mais uma incógnita. Como incógnita é, para o super-homem Hélder Fazenda, cuja referência iniciou e ilustrou a presente crónica, o próximo reforço de mantimentos. Como incógnita é quase tudo o que o futuro lhe/nos reserva.

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