Correio do Minho

Braga,

Sou  aquilo que o passado fez de mim!

Escrever e falar bem Português

Conta o Leitor

2015-08-08 às 06h00

Escritor

Teresa Braga

Hilton Hotel, Paris
Data presente
 Maria olhou para trás para a porta semiaberta e teve um ligeiro estremecimento.
- Madame, sente frio? Deseja que feche a porta?
 Ela abanou a cabeça e a sua mente voltou atrás no tempo: a tantos anos atrás!
 Era inicio de Verão - um dia de excepcional calor - e tinha oito anos. A mãe descansava no quarto e Maria tomava conta dos seus irmãos mais novos que brincavam no terraço. De repente, a cortar o brilho do meio da tarde, uma sombra interpôs-se entre o sol e o tanque de pedra onde Francisco e Pedrinho brincavam a atirar água um ao outro. O homem estava ali parado e olhava fixamente para ela. Estranhamente Maria não sentiu medo. Os seus irmãos excitados com o estranho gritavam a pontos de a mãe ter vindo à janela e ter, também ela, ficado estática a olhar o estranho.
De pouco se lembrava da conversa que entretanto os dois adultos tiveram e sim, apenas, o resultado dela. Uns dias mais tarde o estranho viera busca-la para passear. Tinham ido ao Parque Eduardo VII e Maria tinha comido um corneto de chocolate, que ela adorava mas que a mãe raramente lhe dava porque o dinheiro não chegava. Os passeios passaram a ser uma rotina na vida de Maria: começou a ansiar por eles. Todos os sábados, às dez horas em ponto, ele aparecia e juntos iam passear ao Parque Eduardo VII. Apanhavam o metro e então almoçavam: na sua casa em Xabregas junto ao mercado municipal. A parte do dia que Maria mais apreciava era quando se sentavam os dois na soleira da porta e ele com um canivete pequeno preto e com umas inscrições estranhas no punho tirava duas laranjas da fruteira e as descascava lenta e minuciosamente. Então separava os gomos e comiam-nos alternadamente: um para ela e outro para ele.  Ele contava histórias engraçadas do seu trabalho lá longe - disse a Maria que construía casas num pais chamado França - e ela ria-se. E ele ria de volta para ela! Maria adorava o sorriso dele! Depois perguntava como tinha sido a semana dela na escola. E quando Maria explicava o que tinha aprendido sentia que ele lhe prestava toda a atenção! E que sentia evidente orgulho quando ela lhe dizia que tivera a nota máxima e um louvor da professora. A sua frase preferida era “ Meu anjo, se estudares vais lá chegar”! Maria perguntava invariavelmente onde era esse “lá” mas ele respondia sempre que um dia ela iria saber!
Começou a adorar aquele homem alto e de cabelo louro como o dela e também a adorar laranjas!
Um sábado - já ia o Outono a meio - Maria espreitava pela janela com ansiedade. O relógio batera as dez e meia e nada dele. O telefone tocou de repente e Maria com o susto tropeçou e caiu em cima do sofá. A mãe foi atender e Maria empoleirou-se novamente no seu posto de observação. E de repente pulou de alegria pois entre a neblina de Novembro viu-o: o seu cabelo louro resplandecia e os seus olhos verdejantes sorriam-lhe; aliás, todo ele era luz entre o cinzento do dia e tinha um par de laranjas na mão. A mãe chamou-a da sala e ela virou-se para responder; quando voltou a olhar para a rua ele já não estava lá outra vez.
 Maria tornou a estremecer e respondeu em francês á senhora que não, não sentia frio. Olhou novamente a porta e quase que juraria que o via: alto, louro, de olhos verdes cintilantes e com um aro em cima porque era um anjo: o seu anjo da guarda, o seu pai!
Naquele dia longínquo de Outono, não obstante ela teimar que não podia ir porque ele estava à sua espera, a mãe levara-a de táxi ao hospital (que mais tarde Maria identificou como sendo o IPO de Lisboa). Maria sentira medo e agarrara a mão da mãe com força ao passar pelas caras das pessoas de aspecto sério e bata verde comprida. Do pouco que ouvira da conversa retivera o seguinte:
- Foi estranho sabe? O fim veio sem contar: e ele só pediu laranjas! Fartou-se de pedir laranjas! E sabe o mais estranho ainda? Não conseguimos encontrar uma única que fosse no hospital inteiro! Até fomos ao supermercado ali ao fundo da rua e de toda a fruta na banca, laranjas não encontramos uma única que fosse!
Maria sacudiu a cabeça para afastar as lembranças: do Outono e de laranjas, que ainda hoje não conseguia comer! Tinha a conferência sobre as Doenças Oncológicas para abrir e necessitava de estar no seu melhor!

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.