Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Solidariedade e suas causas

O conceito de Natal

Ideias

2010-11-30 às 06h00

Jorge Cruz

As campanhas de solidariedade a favor dos mais carenciados, que nos últimos tempos têm sido lançadas por diversas instituições, estão a obter uma resposta positiva da população. E os resultados são tanto mais afirmativos quanto é certo que se regista um acentuado recrudescimento desse tipo de acções solidárias, que se fica obviamente a dever à grave situação de crise que afecta um maior número de famílias.

Ainda este fim-de-semana a campanha do Banco Alimentar Contra a Fome assinalou, nas palavras da sua presidente, Isabel Jonet, uma “adesão impressionante”, apesar de as dificuldades afectarem um número cada vez mais alargado da população. Os dados entretanto divulgados referem que a estrutura de Braga, que apoia directamente mais de sete dezenas de instituições, recolheu no sábado e domingo mais de 200 toneladas de alimentos.

Também nos últimos dias foi criada uma parceria entre a Escola Profissional de Braga e a Associação Famílias para levar a cabo uma campanha em prol de 16 famílias carenciadas. Esta acção, que assume diversas formas de actuação, vai decorrer até 10 de Dezembro e visa a angariação de fundos e bens alimentares que posteriormente serão entregues aos destinatários, identificados e abrangidos pela campanha.

Gesto de solidariedade idêntico, embora seguramente mais tocante pelo facto de se tratar de crianças, foi apresentado - e aprovado por unanimidade - na última sessão da Assembleia Municipal de Braga. Trata-se da possibilidade de abrir as cantinas escolares do concelho aos fins-de-semana para atender os alunos carenciados.

O autor da proposta, o monárquico Manuel Beninguer, sublinha que há cada vez mais crianças a chegarem com fome à escola, porque pouco ou nada comeram na noite anterior e na manhã desse dia. Obviamente que à questão dramática de fundo, que é a fome, junta-se toda a problemática das consequências. E estas fazem-se sentir no crescimento, que se pretende saudável como a criança tem direito, e no processo de aprendizagem, que nestas condições não pode ser eficaz.

É por estas razões, por se saber que aumenta diariamente a quantidade de crianças com carências alimentares, muitas das quais sobrevivem apenas com uma refeição quente diária, que os deputados municipais apro-varam uma recomendação ao executivo no sentido de tentar inverter esta situação.

Foi, assim, proposto “o reforço das refeições escolares para os alunos mais carenciados, porque muitos deles não irão certamente jantar”, e ainda “a abertura das escolas e das cantinas escolares nos fins-de-semana, se se justificar e se a situação económica piorar, para apoiar alimentarmente os alunos mais carenciados”.

É extremamente doloroso tomar conhecimento de situações como estas, que afectam directamente muitas das crianças com quem cruzamos no dia-a-dia. Mas infelizmente, o mundo que estamos a construir parece preocupar-se cada vez menos com as pessoas, esquecendo que o primado do homem deveria ser sempre o farol de orientação. E com políticas pouco humanistas claro que nem as crianças escapam.

Os mais atentos e preocupados com estas questões, que afectam quase criminosamente uma boa parte da população e, em parti-cular, as crianças, constaram que já na passada semana, da reunião do Conselho Pastoral da Diocese de Braga havia saído um pungente alerta: “há pessoas que não têm mais do que arroz para dar aos filhos”.

Por essa razão mas também por saber da existência de pobreza escondida e pobreza envergonhada, aquele Conselho viu-se na necessidade de anunciar que a Igreja católica está hoje mais comprometida com os pobres. Nesse sentido, e prevendo tempos ainda mais difíceis, apelou para que as comunidades paroquiais saibam expressar solidariedade com desempregados e, de uma forma geral, com todos os carenciados.

Mas independentemente da diversidade de campanhas para que somos diariamente convocados, e a que devemos responder positivamente, na medida do possível, urge tratar do problema central pela raiz e tal só será possível se combatermos as causas que dão origem ao crescente desemprego e à exclusão social.

Neste particular, para o Conselho Pastoral, impõe-se mais jus-tiça no trabalho, designadamente na forma como as pessoas são tratadas, seus horários e salá-rios. Mas o Arcebispo Primaz de Braga, que aliás presidiu a esta reunião, já havia alertado que “é hora de todos darem as mãos e do povo português não se contentar com o dia do voto”.

Nos comentários que fez à recente greve geral, D. Jorge Ortiga reafirmou que “é preciso muito mais que o voto”, acrescentando que “o povo terá que estar alerta e, porventura, ter uma participação mais crítica, com propostas e com manifestações de desejos de modo mais espontâneo e natural”. Por esse motivo considerou que “o povo português terá que se habituar a uma democracia mais participada e mais responsável e manifestar-se não apenas nesta conjuntura mas também diante de determinadas leis que são prejudiciais para a sociedade”.

Trata-se, afinal, de um apelo a uma maior participação cívica dos cidadãos, semelhante a tantos outros que diariamente nos são colocados com a perspectiva de inverter o rumo do país. O que também não deixa de ser uma forma de sermos solidários.

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