Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Sobre os exames: memórias e debates

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2016-01-15 às 06h00

Margarida Proença

O ruído à volta da educação, nomeadamente do processo de avaliação, é constante. Toda a gente tem opiniões, está bem claro que mais coerentes e corretas que os demais, e curiosamente esta temática é abordada numa perspetiva do “tudo ou nada”, ou como uma tragédia ocorresse. Sendo certo que não sou especialista em educação, também não deixa de ser verdade que tenho um percurso académico muito longo, e por países diferentes, acompanhei muito de perto o processo educativo de três filhos, sujeitos a modalidades diversas de exames finais, para além de quarenta anos de docência, envolvendo a avaliação de milhares de estudantes. Como metodologia de análise, são estudo de casos, seguindo uma estratégia explicativa; dizem os entendidos que é necessária a sua contextualização no tempo e no espaço. Vamos a isso então.
Quando comecei as minhas lides académicas, a década de 50 ainda por cá andava; o analfabetismo ia diminuindo lentamente, dos 42% em 1950, para os 33% em 1960. Já não me lembro se quando entrei na escola primária, o exame final era ainda na 3.ª classe, altura em que a larga maioria deixava a escola. No meu caso, já o fiz na 4.ª classe. O exame final era um momento solene - todos de bata branca, numa outra escola, central. O exame, com provas escrita e oral, refletia o entendimento das competências ao tempo - uma prova de português, outra de aritmética, outra de história e geografia, e finalmente, para as meninas, a demonstração de um saber traduzido num pregar de um botão, ou na cerzidura de um remendo. Para os rapazes certamente haveria algo adequado também. Contas de dividir complicadas, a requerem provas dos nove, a enumeração dos reis de Portugal e dos seus cognomes, a listagem dos rios, montanhas e apeadeiros das linhas de comboios, no fim traduzia-se num diploma que atestava para muitos, a maioria, o fim do percurso educativo, e sinalizava que podiam tentar a sua sorte na cidade.
Para mim, a memória desse exame radica apenas num almoço comemorativo, e na oferta do primeiro relógio. Não havia aliás qualquer exigência em termos educativos, qualquer cuidado colocado na preparação prévia para o exame da 4.ª classe. Pelo contrário - ao tempo, essa exigência era colocada na preparação para um outro exame, o de admissão ao liceu (ou ao ensino técnico). De tal forma era assim, que das cinco escolas primárias que existiam por lá onde vivia, foi criada logo no início do ano, uma única turma à parte, separada, com um professor considerado mais exigente, e que incluía todos os meninos e meninas que iriam ter de se apresentar ao tal exame de admissão. E note-se que, ao tempo, não havia cá misturas, era meninos para um lado, meninas para o outro!
Na verdade, o exame de admissão ao liceu, frequentado predominantemente por alunos oriundos de níveis de rendimento mais elevado, justificava ao tempo uma exigência na sua preparação muito superior ao da 4.ª classe, lido como uma verdadeira avaliação externa; lembro, por exemplo, que o tal professor me acompanhou sempre, e que me deu instruções, e mesmo ensinamentos adicionais tanto antes da prova escrita, quanto da prova oral, feitas no liceu. Só em 1967 vieram a ser extintos os exames de admissão aos liceus e às escolas técnicas, o que permitiu de facto a expansão de todo o ensino pós-primário, que passou de 21.966 alunos no ensino liceal, a que se somavam 31.159 alunos no ensino técnico, em 1950, para mais de 404 mil alunos em 1970.
Passei depois por exames no 2.º ano, no 5.º e no 7.º, utilizando uma linguagem “arcaica” que corresponderá aos 6.º, 9.º e 11.º atuais. No final do liceu, o processo de avaliação final era bastante semelhante ao sucedido na 4.ª classe - os exames do 7.º ano, com provas escritas e orais a todas as disciplinas, não escondiam que a verdadeira exigência na preparação dos mesmos era feita olhando os exames de aptidão á universidade . Os exames finais do ensino secundário atribuíam um diploma, importante para aqueles que ficavam por aí, e sinalizava a possibilidade de bons empregos, nomeadamente nos serviços. Mas para a elite que prosseguia os estudos nas universidades, a verdadeira porta era o exame de aptidão, constituindo uma avaliação externa aplicada pela universidade.
Hoje em dia, o exame no final do 4.º ano não faz qualquer sentido; nenhum dos meus filhos o fez, e não consigo perceber em que medida poderão ter sido prejudicados em termos da qualidade do processo educacional a que foram sujeitos. Os saberes formais e disciplinares correspondentes à primeira fase do processo educacional têm de ser assegurados a todos, competindo ao sistema estabelecer o nível, monitorizar a sua aquisição e definir as formas de, atempadamente, corrigir eventuais dificuldades. A decisão de o fazer logo no 2.º ano de escolaridade é excelente, e pode potenciar dinâmicas que melhorem o ajustamento entre a escola e o capital cultural das famílias.
Os outros níveis de ensino colocam alguns problemas de natureza mais complexa, que vale a pena continuar a abordar.

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