Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Sobre a Comemoração do Dia Mundial da Filosofia

Viagem a Viena

Ideias

2016-11-20 às 06h00

Manuel Barros Manuel Barros

O Dia Mundial da Filosofia foi implementado pela UNESCO em 2002. Comemora-se todos os anos, na terceira quinta-feira de novembro, com o objetivo promover a reflexão e o questionamento, e enaltecer a importância da Filosofia na vida do homem e na sociedade. Este ano, foi comemorado em paralelo com o Dia Mundial da Tolerância, para incentivar o diálogo sobre as suas conexões com a tolerância, explorar novas maneiras de aumentar o acesso ao ensino nesta área do saber, para promover a importância crescente da aprendizagem filosófica, conforme defende a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. 

Neste contexto, a Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais do Centro Regional de Braga, da Universidade Católica Portuguesa, comemorou o “Dia Mundial da Filosofia”, com a realização de um dia aberto, que contou com a participação de algumas centenas de alunos do ensino secundário, e um grupo bastante significativo de professores. Excelente iniciativa pela sua proatividade e visão estratégica, apoiada num programa dinâmico e muito diversificado, que integrou uma sessão plenária, onde tive a oportunidade e a honra de participar, a convite da Direção da Faculdade.

Um painel constituído pelo testemunho profissional e pela mundividência de mais dois oradores, com formação académica em filosofia. João Paulo Tavares, consultor filosófico e membro da Associação Portuguesa de Ética Filosofia Prática, e José Prudêncio, professor e investigador na área Astrofilosofia. Três percursos profissionais diferentes, construídos fora da atividade docente, convencionalmente, considerada a par da carreira de investigação, como uma das saídas profissionais dos diplomados em filosofia, nos seus diferentes graus académicos.

Uma visão que tem vindo a ser desconstruída, apesar de centrada na preservação da sua matriz identitária e na orientação científica e pedagógica desta prestigiada instituição de ensino superior. Promovendo de forma inovadora, o contacto com as tendências do pensamento contemporâneo e da história da filosofia, apostando numa formação cultural específica do desenvolvimento das capacidades de reflexão, sentido crítico, curiosidade, criatividade, trabalho em equipa, organização, comunicação, na investigação e no ensino, apostando na diversificação das saídas profissionais dos seus diplomados.

A Comemoração do Dia Mundial da Filosofia na FFCS/UCP, foi um momento importante de reflexão, que merece uma atenção muito especial, pelo seu significado académico, e pelo facto de ter lugar numa Instituição de Ensino de Filosofia de referência nacional e Internacional. Pelos serviços  prestados ao sistema educativo, ao país, e do pensamento filosófico mundial, em torno dos quais vou dedicar mais algumas crónicas, por se tratar de uma marca que faz parte do pensamento filosófico português.

A Faculdade de Filosofia “A Escola de Braga”, como berço da Universidade Católica Portuguesa, consubstancia  um estatuto, no contexto da história do pensamento filosófico contemporâneo, que impõe o imperativo coletivo da defesa do seu futuro, liderado pela Universidade Católica, pela cidade e pelas instâncias governamentais competentes, como património nacional.
Entretanto, os tempos mudaram, e continuam a mudar a grande velocidade.

O mundo já não é o mesmo. O futuro da formação em filosofia, como de todas as formações humanísticas “clássicas e/ou modernas”, dependerá da capacidade da Universidade de adaptar os seus itinerários formativos, à tendência marcadamente tecnológica do mercado, ao novo quadro convencional das elites, às novas circunstâncias sociais e às exigências do mundo do trabalho. Dependendo ainda, de cada um dos actuais e futuros diplomados em filosofia, no quadro da assunção das suas responsabilidades, ao jeito que preconizou Ortega Y Gasset, em relação a todas as dimensões da nossa vivência, “eu sou eu e as minhas circunstâncias, e se não as salvo não me construo”.

Nesta perspetiva, e no âmbito do desenvolvimento do tema “A Filosofia e o mundo do trabalho - novos desafios” que desenvolvi, aconselho uma breve visita ao “Ultimatum Futurista às Gerações portuguesas do século XXI”, de Almada Negreiros, pela sua actualidade e pela sua capacidade de antecipação, que na minha opinião consubstancia o cerne da reflexão e do debate sobre a sociedade portuguesa: “…Transformem em bonecos de palha todos os pessimistas e desiludidos! Rejeitem o sentimento de insuficiência da nossa época! …Cultivem o amor do perigo, o hábito da energia e da ousadia! Virem contra a parede todos os alcoviteiros e invejosos do dinamismo!…

Defendam a fé da profissão contra atmosferas de tédio ou qualquer resignação! Façam com que educar não signifique burocratizar! Mandem para a sucata todas as ideias e opiniões fixas! Mostrem que a geração portuguesa do século XXI dispõe de toda a força criadora e construtiva! Atirem-se independentes prá sublime brutalidade da vida! Dispensem todas as teorias passadistas! Criem o espírito de aventura e matem todos os sentimentos passivos!”.

Um pertinente questionamento do poeta futurista, num contexto sociocultural em que a cultura se assume cada vez mais, como um sector estratégico de alavancagem da economia do nosso tempo, no contexto da sociedade do conhecimento, a reflexão entre os palestrantes, os estudantes e os professores presentes na Aula Magna da Faculdade foi desenvolvida sobre: O papel da filosofia como área do saber estruturante; A formação em filosofia e o mundo do trabalho; Filosofia, inovação e novos desafios. Uma reflexão que, oportunamente, deverá ser revisitada tal como referi, pela sua complexidade.

Uma necessidade real, a avaliar pela posição de Pierre Lévy, autor do livro “Educação e Cibercultura”, onde defende que a maioria dos saberes adquiridos no início de uma carreira, tornam-se obsoletos antes mesmo do final do percurso profissional. Uma rotação precipitada pela aceleração da temporalidade social e pelas evoluções técnico-científicas, que se traduzem numa diversidade de saberes, que vão das ciências humanas sociais e naturais, às áreas tecnológicas. Exigindo que a sociedade ofereça, permanentemente, novos espaços de aprendizagem e de desenvolvimento das competências mais valorizadas pelo mercado de trabalho, onde a filosofia terá de pensar o seu reposicionamento.

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