Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Só a prática pode confirmar a intenção

Por uma Política Agrícola Comum que previna as alterações climáticas

Ideias Políticas

2017-05-09 às 06h00

Carlos Almeida

As recentes declarações de Ricardo Rio, que vieram anunciar a intenção de candidatar Braga a Capital Europeia da Cultura em 2027, apesar de inusitadas e extemporâneas, devem ser acolhidas com agrado. Pelo menos, no que toca a intenções. Sem ironia, parece-me bastante positivo que a actual gestão municipal coloque na agenda um compromisso com a cultura.
Apesar da louvável intenção, no entanto, julgo pertinente perceber em que se fundamenta tal proposta. E é precisamente nesse ponto que o cenário se afigura mais complicado para os responsáveis municipais.

Em Braga, como em qualquer outra cidade que almeje atingir esse título, parece-me evidente que deve existir um plano que suporte a candidatura. De outra forma, o notável propósito não pode ser levado na devida conta.
Qual é então a estratégia cultural de Braga para os próximos anos? Não pode passar apenas pela realização de dois ou três eventos anuais de grande dimensão, muitas vezes de qualidade questionável. Mantendo-se essa linha política afigura-se muito difícil alcançar o pretendido.

Não é de hoje que a cultura em Braga é o parente pobre da gestão municipal, é verdade, mas a situação tem vindo a degradar-se com a evolução dos tempos. Neste particular, é importante clarificar que não me estou a referir à actividade do Theatro Circo, que, apesar das limitações impostas por regimes legais aprovados ainda no governo PSD/CDS, conseguiu elevar a sua condição, melhorando a oferta e aumentando a procura. Apesar dos sinais positivos, o Theatro Circo não pode ser apenas a casa de espectáculos de Braga e deve dispor de meios para assumir-se como o centro de uma política cultural, dinamizador de projectos, estrutura de suporte e apoio aos agentes culturais e aberto à comunidade.

Noutra dimensão, que ilustra bem a ausência de uma estratégia, verifica-se que o investimento da Câmara de Braga em cultura é rigorosamente nulo. Na verdade, não é surpresa para ninguém que o actual mandato da coligação Juntos por Braga fica marcado pelo insuficiente investimento nas mais diversas áreas de governação, mas o cúmulo dessa opção evidencia-se ainda mais no plano cultural, uma vez que, durante anos sucessivos, a Câmara escolheu não destinar um cêntimo que fosse para investir em equipamentos, infraestruturas ou bens culturais. Procurando desviar atenções, há quem contraponha este facto com as despesas do município com o funcionamento regular do Theatro Circo ou do GNRation. Mas isso não é investimento, são despesas correntes.

Investimento seria e muito bem, por exemplo, a aquisição do Cinema São Geraldo e a sua adaptação às necessidades culturais da cidade. Ainda assim, como dizia acima, muito há ainda a fazer no Theatro Circo, bem como no GNRation, que deve recuperar a sua vertente predominantemente cultural e criativa, contrariando a expansão de outras componentes, nomeadamente a económica.

Em suma, como se constata, o anúncio de Ricardo Rio, talvez entusiasmado pelo ano eleitoral que vivemos, veio fora de tempo e está desajustado da realidade.
A eventual candidatura de Braga a Capital Europeia da Cultura pode ter muito valor e deve merecer o apoio e a colaboração das diversas forças vivas da cidade, mas para ser levada a sério a Câmara de Braga tem de fazer corresponder os actos e a prática à sua suposta vontade. De outra forma, nunca passará de uma tentativa de iludir os cidadãos e estará condenada ao fracasso.

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