Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Sinfonia Urbana

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2013-07-30 às 06h00

Escritor

Vítor Costa

A cidade despertou arrebatada por uma sinfonia descoordenada e desafinada. Lá em cima as cortinas deixavam transparecer uma ténue luz. Cá em baixo o maestro colocava-se em posição. O público aguardava impaciente, tentando colocar-se nos melhores lugares. O ruído era cada vez mais intenso e as desafinações eram sinónimas de um nervosismo latente. Finalmente as cortinas cinzentas prestaram vassalagem à imponente luz que inundou o palco de um brilho intenso.

O nevoeiro que antes parecia anunciar um caos aparente dera lugar a uma desordem presente. Uma nota estridente deu o apito inicial colocando o maestro em sentido. Observou a paisagem em redor e com o seu olhar fulminante deu início às hostilidades. Destemido, levou o apito à boca e abafou o ruído omnipresente. No palco os protagonistas protestavam, agraciando a plateia com uma amálgama de notas graves e agudas.

O eco ressoava por todas as artérias, bombeando o som desde o coração da cidade. No seu palanque o maestro tentava impor as suas regras. Ninguém ficava indiferente à graciosidade dos seus gestos. Até as luzes da ribalta prestavam tributo ao seu canto de sereia. O seu controlo era total sobre a cadência da sinfonia. Os músicos renderam-se, estendendo a passadeira vermelha à perfeição do ritmo. A plateia assistia impávida e serena, subjugada pela imponência do espectáculo. Mas lá em cima as cortinas desdobravam-se ameaçadoramente.

O concerto estava prestes a atingir o seu auge. Um som sibilante imortalizou o último gesto do maestro como uma fotografia. Todos ficaram imobilizados, extasiados naquele enredo. E o mais absurdo silêncio imperou inusitadamente. De repente, e em câmara lenta, uma chuva de aplausos abateu-se sobre a cidade. A sua intensidade e força inundaram por completo o centro em poucos segundos. E em poucos segundos apenas o palco de todas as atenções despertava lentamente de um sonho. No horizonte, uma panóplia de cores finalizou o espectáculo com um deslumbrante fogo de artifício colorido.

Acordei submerso numa estranha harmonia. Reparei imediatamente no arco-íris que sorria para mim. Abracei o novo dia e envolvi ternamente a cidade nos meus braços. Não sabia onde estava. No entanto, olhei para o quadro que reclamava pela minha atenção. Um retrato urbano impregnado por uma plumagem aquosa transparente e tonalidades cinzentas claras envolto num clima de grande tranquilidade. Chovia intensamente. As nuvens espessas uniam-se à rebeldia do sol, condenando-o à sua reclusão. E estranhamente o caos matinal normal de uma cidade era apenas uma miragem. O trânsito fluía como a corrente de um rio, sem quaisquer perturbações.

Dediquei a minha atenção a um polícia sinaleiro que assobiava e gesticulava enquanto serpenteava à minha frente. Nos seus olhos vi a expressão do dever cumprido. Ele pareceu ler os meus pensamentos.
- O trânsito da cidade é como domesticar um animal selvagem. - Afirmou, em jeito de comentário. - Há que saber tomar as rédeas da situação.

Alguns transeuntes aproximaram-se e cumprimentaram-no com satisfação. Estavam a dar-lhe os parabéns pela sua prestação, tal como no final de um concerto. E chegaram ao ponto de comparar a sua atuação à de um maestro. O polícia sinaleiro anuía, visivelmente agradado com a comparação. Agarrou no pequeno banco que trazia e colocou-o no chão do passeio. E para gaudio do seu público, decidiu fazer uma nova demonstração, gesticulando e apitando como se estivesse no meio do trânsito. O público que entretanto formara-se em redor dele ria-se e aplaudia o espetáculo como se não tivessem de ir trabalhar, estudar ou de continuar com as suas vidas. Era como se que aquela rua em particular tivesse sido recortada e separada do resto da cidade. Olhei em redor e reparei que todas as outras ruas vizinhas pareciam estar inanimadas e sem cor.

O arco-íris apenas iluminava aquela rua em particular. Parecia que eramos como um farol no meio da tempestade. E eu sentia-me estranhamente tolhido pela invulgar situação. Esfreguei os olhos tentando sair da tela do quadro. Mas era mais forte do que eu. Rendido, mergulhei naquele oásis.

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