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Silêncio na era do ruído

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Silêncio na era do ruído

Ideias

2021-02-28 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

1. “Silêncio na era do ruído” é uma fantástica obra do norueguês Erling Kagge, explorador, escritor e editor. Foi a primeira pessoa a caminhar sozinha no pólo sul e também a chegar aos "três pólos": norte, sul e o cume do Everest. 
Naquela obra, traduzida em várias línguas, o autor empreende uma viagem pessoal e filosófica sobre a importância do silêncio, numa época em que à nossa volta sobressai o ruído, do trânsito às fábricas, das televisões às redes sociais, da política ao futebol. O silêncio é o exercício mais difícil nos dias que correm, como estratégia para uma melhor organização do pensamento, para a voluntária abstracção do que se passa em redor e é absolutamente dispensável, para o auto-conhecimento do sujeito, para a obtenção da necessária paz interior. Mas também o silêncio como paradigma de uma atitude pessoal, no sentido de dar razão ao adágio “se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro”.
O silêncio, como imperativo de quem se deveria calar, porque nada tem a dizer, ou do que diz melhor fora estar emudecido. Ou o silêncio cobarde de quem deveria usar da palavra para elogiar o que antes injustamente censurou.

2. Que a situação global da tragédia pandémica que se abateu sobre o país tem dado origem a múltiplos aproveitamentos de carácter político e a frequentes ataques ao Governo de António Costa por parte de partidos e opinadores, julgo não haver a minúscula dúvida. O mor das vezes sem a mínima consistência e objectividade, apenas para cavalgar a onda que se gerou em resultado das medidas que têm sido tomadas e que, certamente, não são agradáveis para alguns sectores. Vamos entrar no 12º Estado de Emergência e nas últimas renovações, alguns partidos têm negado no Parlamento o que está claramente à vista de todos que é o melhor caminho. Alegam, com a maior irresponsabilidade, que estão em causa as liberdades individuais (claro que uma das liberdades individuais é poder andar livremente por aí, para ver se vai parar à UCI de um hospital…), que a economia está paralisada (e bestas condições não pode deixar de estar), que o melhor é deixar o país em roda livre e seja o que Deus quiser!... Só gente leviana, para ganhar as migalhas de uns votos em próximas eleições, pode sustentar posições tão estapafúrdias, quando há tanta gente a morrer todos os dias devido à Covid-19. Não é caso para brincadeiras, nem para meros jogos políticos.
Ainda bem que a clarividência do Presidente da República e o patriotismo do PSD, honra seja feita a Rui Rio, têm permitido ao Governo tomar as medidas que a gravidade do momento tem imposto. E o certo é que o confinamento decretado em Janeiro aos portugueses, sobretudo com o encerramento das escolas de todos os graus de ensino, está a dar os seus frutos bem positivos.
Basta ver os números, por alto. O número de casos diários em 27 de Janeiro era de 15 432 e por estes últimos dias anda na casa dos 1000 (este sábado: 1067). Os internados em unidades hospitalares em 1 de Fevereiro eram 6869, ontem eram 2180. Nos Cuidados Intensivos estavam, em 5 de Fevereiro, 904 doentes e este sábado estavam 492. As mortes, sempre lamentáveis, foram em 28 de Janeiro em número de 303 e em finais de Fevereiro baixaram para cerca de 50 (este sábado desceram mesmo para 33 os óbitos). Ou seja, as medidas decretadas pelo Governo vão no caminho certo. Irrecusavelmente certo. Só que as críticas ruidosas de há um mês, segundo as quais era uma vergonha que Portugal estivesse no top europeu de novos casos e de mortes, culpa atribuída ao Executivo de Costa, naturalmente, deram lugar ao mais rutilante silêncio, de quem deveria ter a hombridade de reconhecer que se enganou e que as medidas tomadas foram as mais acertadas.
Como escrevia no “Expresso”, há uma semana, Miguel Sousa Tavares, “onde estaríamos se os votos do PCP, do Chega e da IL tivessem tornado inviável este novo confinamento? Um sopro de honestidade intelectual obrigá-los-ia a, no mínimo, reconhecerem que estavam errados”. Qual quê? Restou o silêncio, onde antes havia estridente ruído!!!

3. Nos últimos dias voltou o mais estrondoso ruído à praça pública, a propósito da morte do militar Marcelino da Mata e da posição iconoclasta do deputado socialista Ascenso Simões.
Marcelino da Mata, falecido há pouco mais de uma semana de Covid, foi pretexto para o combate político de franjas da direita e extrema direita, do CDS ao Chega. Exibem a memória do mais condecorado militar do Exército português, quando se sabe que foi o Estado Fascista e Colonial que lhe deu os penduricalhos, pelos “bons serviços” prestados ao regime falecido em 1974. Colam-lhe uns o rótulo de herói e outros o de criminoso e de traidor. Nasceu na Guiné, mas combateu o seu próprio povo e por isso foi proibido de entrar na sua terra-natal. Gabava-se de que nunca entregou "um turra” (calão para combatente independentista africano) à PIDE, antes "cortava-lhes os tomates, enfiava-lhos na boca, e ficava ali a vê-los morrer".
É este o “herói” que a extrema-direita mais anedótica quer mitificar. Seguramente, estamos em presença de um criminoso de guerra, que depois do 25 de Abril engrossou as fileiras da contra-revolução golpista do ELP, MDLP, Spínola, Kaúlza de Arriaga, etc.
Por aí se vê a qualidade “patriótica” do agora endeusado Marcelino da Mata.
Estamos em presença de um exercício deliberado de branqueamento extemporâneo da História Portuguesa.
Já Ascenso Simões quer rever a nossa História. Num artigo publicado no jornal “Público”, sugere que “devia ter havido sangue, devia ter havido mortos, devíamos ter determinado bem as fronteiras para se fazer um novo país” no 25 de Abril; que “a nossa História precisa de ser descolonizada” e que o “mamarracho do Padrão dos Descobrimentos”, “num país respeitável, devia ter sido destruído”. Considera que aquele mítico edifício “é um dos grandes monumentos do regime ditatorial”. Veio mais tarde esclarecer que estava a falar em sentido figurado…
Defender a demolição do Padrão dos Descobrimentos, é o mesmo que defender a demolição dos Jerónimos, do Convento de Mafra ou dos castelos que bordejam todo o nosso território. Goste-se ou não, são símbolos de um certo Portugal, que têm de ser lidos à luz dos tempos em que foram construídos. No caso do Padrão dos Descobrimentos, no quadro de uma mitologia do Estado Novo que privilegiou a memória dos Descobrimentos e da Idade Média. Todos esses monumentos, hoje fazem parte integrante do nosso património histórico e cultural e são centros de atracção turística para nacionais e estrangeiros, e por isso também mais-valias do ponto de vista económico!
A História não é para ser julgada, nem condenada; é para ser compreendida em função de cada tempo bem concreto e, em face das suas lições.

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