Correio do Minho

Braga, terça-feira

Significado: sustentabilidade

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Ideias

2018-02-26 às 06h00

Filipe Fontes

Associada à palavra ecologia, surge uma outra palavra muito em voga e, recorrentemente, utilizada em múltiplos contextos e realidades. E, tal como se interrogou no último texto (a pretexto da palavra ecologia), será que hoje a percepção do significado da palavra sustentabilidade corresponde ao seu verdadeiro âmbito e conceito?

Na realidade, de tanto se ouvir a palavra, de tanto se ler em diferentes contextos e enquadramentos, de tanto se repetir como um eco inútil que se perde na depressão rochosa, é convicção de que, hoje, a palavra sustentabilidade é muito mais uma ferramenta e instrumento oral de um discurso ecológico do que o reflexo de uma verdadeira aceitação do seu significado e conceito.
De forma simplificada, sustentabilidade trata de manter e conservar tudo aquilo que é necessário ser perene e que, por ser perene, deve continuar bem para suportar o presente e o futuro (desejando-se que tenha suportado o passado, esse momento que já foi presente e futuro).

Assim sendo, se ecologia trata da relação e, portanto, fixa-se nos seus actores e interacções que estabelecem, sustentabilidade reporta ao equilíbrio e, portanto, prende-se à proporção de forças e valores em presença. Dir-se-á que se limita ao seu carácter fundacional (o que está na origem) e não no seu carácter relacional (o que resulta da interacção).

Tentando objectivizar para melhor entendimento, recorre-se a um exemplo sobre uma realidade amplamente difundida e discutida: nunca como hoje se questionou a presença do carro na cidade, sendo este (muito) frequentemente apontado como factor de um ambiente e mobilidade não sustentáveis ao ponto de resultar, tantas vezes de forma desvirtuada e enviesada, que a solução passa por eliminar o carro da cidade. E, assim, eliminando a suposta causa, elimina-se as evidentes consequências e o ambiente e a mobilidade se transformarão em sustentáveis (porque o ar passará a estar limpo, porque as pessoas começarão a andar massivamente a pé e de bicicleta, porque o transporte público passará a ser a escolha primeira).
Na verdade, constata-se convictamente que o problema não está no carro e na sua presença na cidade porque este mesmo carro é parte da nossa vida quotidiana e existe porque é necessário como resposta às nossas necessidades, existe para nos servir mas sim no excesso do carro na cidade, ou seja, naqueles que circulam na cidade apenas para a atravessar e chegar de um ponto ao outro sem interagir com o espaço urbano, naqueles que ocupam desnecessariamente espaço público de valor e uso comunitário, naqueles que transportam pessoas para a cidade (e depois as retiram da mesma ao final do dia) e ficam a repousar nos arruamentos urbanos durante horas, ocupando espaço de forma indi- ferenciada, ou seja, coloca-se ao mesmo nível e valor, o tráfego de passagem e o tráfego de trabalho, o tráfego de recreio e o tráfego de emergência e logística, numa indiferenciação que não é compreensível à luz da própria vida da cidade. Perguntar-se-á não existem cidades onde a presença de outras formas de mobilidade ditas suaves é muito mais marcante e presente do que o carro?. A resposta é, naturalmente, que sim. Convém não esquecer é que, também nessas cidades, o carro marca presença, muita presença. Apenas com a diferença que não será (tanto) em excesso. E que nalgumas dessas mesmas cidades já se discute o controlo do eventual excesso, por exemplo, da bicicleta no centro urbano? porque, na essência, a sustentabilidade não se reduz ao ambiente puro e simples, mas ao equilíbrio dos factores em presença nesse mesmo ambiente relacionado e interdependente.

É este uso desregrado do carro, este excesso de circulação automóvel para além do necessário ao suporte da nossa vida quotidiana que não é sustentável. Porque, na verdade, não trata, antes prejudica, a eficácia e eficiência do mesmo suporte ao quotidiano. Do qual, o carro é parte integrante.

Conclui-se assim que sustentabilidade trata de combater o excesso e equilibrar as necessidades e as possibilidades. Não esquecendo a preservação do essencial, mas não omitindo a ambição. Não se abstraindo do futuro, mas não se imiscuindo de responder ao presente.

Por vezes, ou tantas vezes, fica a sensação de que a sustentabilidade é tudo o que é verde, natural e conservador, é tudo o que deixa o futuro sem passado Talvez não seja assim.
E porque se julga que não é assim, talvez seja bom reflectir e melhor aplicar a palavra sustentabilidade. Quanto mais não seja em nome da própria sustentabilidade do discurso que não nos cansamos de repetir

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