Correio do Minho

Braga, terça-feira

Significado: prémio

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2018-03-12 às 06h00

Filipe Fontes

Entre outras palavras e conceitos que merecem reflexão e clarificação para o bem do mundo urbano, numa semana de entrega e anúncio de prémios no âmbito da arquitectura (e, consequentemente, cidade), elege-se esta mesma palavra prémio para reflectir e interpretar o seu significado e percepção.
De uma forma, dir-se-á, simples, prémio é recompensa ou distinção, seja ela material ou imaterial, por força de um trabalho ou acção realizado e que, independentemente do seu fim ou natureza, representa mérito e / ou vantagem. Dir-se-á que prémio significa lucro obtido por força do mérito da nossa acção (seja qual for o juízo de valor que se produza).
Como tal, prémio pode ser assim o epílogo de uma acção ou o incentivo a que essa mesma acção se prolongue e consolide. Pode ser palmas pela forma boa com que se alcança a meta ou grito de incentivo para que se continue a procurar a meta de forma superior.

No campo da arquitectura (e, consequentemente, da cidade), os prémios últimos Pessoa e Pritzker revelam, de forma indelével, a motivação do reconhecimento. E a síntese do esforço.
No prémio Pessoa (Manuel Aires Mateus), premeia-se o percurso rigoroso e qualificado de um jovem arquitecto que, pela sua margem de progressão, trabalho e mérito demonstrado, mas ainda muito mais por demonstrar, só pode entender (como aliás o fez de forma superiormente elevada no seu discurso de aceitação do prémio) como o reconhecimento do seu trabalho e margem de crescimento e afirmação que encerra. Só pode entender como motivação para continuar e nunca como constatação de que chegou.
No prémio Pritzker (Balkrishna Doshi), premeia-se o percurso de um arquitecto indiano e toda a coerência, qualidade e singularidade do seu percurso.

De idade substancialmente mais avançada, neste caso, premeia-se o caminho denso e longo realizado, sintetizando-se no prémio o reconhecimento do mérito do esforço materializado. Não sendo um fim de linha, será porventura o corolário de um percurso extenso.
Entre a motivação do reconhecimento e a síntese do esforço, extrapolando para a cidade, esta forma binária de entender o prémio também se aplica.
Num momento em que proliferam os prémios formatados na designação da capital de , independentemente da dimensão e significado de cada um desses prémios, importa reflectir sobre a forma de os encarar e, assim, reverter o efeito positivo de ser capital de forma sólida e duradoira para o espaço urbano.

Se entendermos o prémio como um resultado, um objectivo que se esgota por si só e se finaliza no momento em que é alcançado, então este mesmo prémio será (embora) sedutor, incompleto e, de alguma forma, de potencial perverso (transmitindo uma mensagem que se pereniza naquele, e só naquele momento).
Ao contrário, se considerarmos ser capital de como um processo de construção de caminho, como uma motivação para um reconhecimento futuro, então este mesmo prémio será alimento de construção de uma cidade cada vez mais e melhor cidade.
Se é verdade que prémio tem este carácter apelativo de protagonismo, não é menos verdade que o mesmo se esgota em si mesmo, por si mesmo.

Inversamente proporcional, se é verdade que o prémio cristaliza, de alguma forma, um momento, não é menos verdade que, enquanto alimento de um processo, o prémio gera outros momentos e desafios, numa exigência contínua de crescimento e melhoria.
E nesta grande diferença entre a forma binária de entender o prémio, entre o reconhecimento sedutor de ser o melhor e o visibilizar e legitimar a exigência de que se pode ser melhor, sempre melhor, devem as cidades entender o que é ser capital de: ser capital é ser exemplo e importante. Pelo caminho que se fez, pelo caminho que se percorre, pelo caminho que se impôs percorrer. E assim, construir um futuro, seguramente, mais exigente (e, de alguma forma, mais desconfortável porque sempre desafiante e cobrador de melhoria) mas também mais seguro, interessante e ao encontro da verdadeira razão da(s) cidade(s): as pessoas.
Assim saibam as cidades entender o(s) prémio(s). Assim saibam ser capital

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