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Setembro

A Martins Sarmento e as Festas Nicolinas em Tempo de Pandemia

Setembro

Escreve quem sabe

2020-09-09 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Há um fio de tempo que não morre em mim. Estende-se em deslumbre. Permanece como o pôr do sol. Alivia a alma. Purifica o olhar. É assim o meu setembro. É nele que nasce o Outono que sou. Por ele desfilam os meus voos. O desassossego e a paz. Recrio-me como se a vida não tivesse preço. Deixo-me por vezes desatar. Há em mim o menino sem névoa. Aquele que quis ter este país como pátria. Que assumiu as dores que não devia. Que viu o que o pó da terra pode valer.
A estrada de setembro é diferente. Há nela o cheiro quente dos fins de tarde. A volúpia do orvalho da manhã. Os dias pedem abraço. Há um parar de instinto. Um desarme que serve, tantas vezes, para desorientar o queixume.
Preciso da solidão que nasce neste mês. É povoada de serenidade. Tem pedaços de nada que me preenchem. Há neles o pousar do vento. Com eles viajo para onde preciso. Raramente para onde quero.
É neste tempo onde a terra me chama. Mais tarde veio o mar. Neles, estala a ausência como escreveu Vinícius de Moraes: “Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada”.

Em setembro o areal fala-nos. Quer-nos. O mesmo sucede com a dança das folhas. Havemos sempre de ver o que não temos. O que partiu, umas vezes em fuga, outras pela falta de coragem e ainda outras pelo erro que não vencemos. Em afago, os pingos da chuva. Se deixarmos, pincelam o corpo. Sabem a céu, tamanha paz que provocam.
Por estes dias encontro sempre um cabaz de odores. A terra está mais mansa. Acaba de parir muito. Está exausta, mas não verga mesmo que o homem lhe bata. Outros filhos irão vingar como os níscaros e as castanhas, privilégio de quem habita numa terra como Barroso. Os lameiros hão-se encher de fios de água. Por lá irão salpicar rãs e lagartos. Aqui e acolá iremos mirar o peregrinar do caracol. Ao longe, bem ao longe, madrugada dentro, irá ecoar o uivo do lobo. O vigilante do luar. Pelo tímpano, o badalo das aldeias, sinal que convoca sorriso e choro.

O regaço dos dias pede toque. Burila o melhor de mim. Abrigo-me naquilo que me acaricia: o silêncio, o cabelo ao vento, o rasgo da palavra, o balançar do caminhar, o riso de alma, a água quente do céu, a inocência do ímpeto.
O laço deste tempo é uma viagem. Não criva as horas. Deixa-as à sorte da maré. Raros são os momentos de asilo. Tudo pede emancipação. Um andar sem trela, sem a amarra do pensamento que corrói e anula o que irá ficar.
Neste mês sou mais eu. Consigo arcar com menos cólica a ausência. A falta que suga, aquele nervo de pele que dá corpo à mudez. Desenrolo-a, às tantas, pelo olhar. Quando o faço, é mais fácil, muito mais, deixar que o vento me empurre para o belo, para aquele tocar que cega. Até porque, à medida que corre o relógio, cresce em mim a chuva inclemente, aquela que não me apazigua, longe da gota quente que beija o voo da liberdade de setembro.

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