Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Setembro é um mês triste

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ideias

2010-09-06 às 06h00

Artur Coimbra

Setembro é um mês triste. Não pode deixar de o ser, quando é o mês do popular “regresso”, da chamada “reentrée”, que é um retorno mais chique: ao trabalho, para quem tem a fortuna de hoje em dia ter um emprego; às aulas, para que os jovens não se esqueçam de que para serem alguém na vida têm de aprender, nem que sejam as operações mais triviais de “ler, escrever e contar”, se bem que nada disso esteja garantido se o sistema educativo for avante com aquela ministerial bizarria de todos passarem de ano, estudem ou não, empenhem-se ou não liguem a mínima, faltem ou primem pela assiduidade; enfim, a anual volta à “porca da vida” das novelas, da política, do futebol, do escárnio e do maldizer.

Setembro é um mês triste porque se segue imediatamente a outro em que tudo se combina para correr bem. Em Agosto, concentram-se as férias de quem a elas tem direito. O Algarve peja-se de gente, que ocupa praias, hotéis, apartamentos e restaurantes, como se a crise fosse uma miragem. Mas também o Alentejo, a Figueira da Foz, a Póvoa de Varzim, Caminha e Moledo. E também o sul de Espanha, o Brasil e Cabo Verde. Sinal de que ainda há poder de compra para alguns dias de descanso, ainda que cada vez menos, que estabeleçam uma rotura com o quotidiano, em ambiente descontraído, sem horários, sem relógios, sem a pressão dos restantes onze meses do ano.

Em Agosto as cidades e as aldeias pululam de emigrantes que animam as terras de onde são naturais, com os seus coloridos falares e a sua presença amiga, nas esplanadas, nas ruas, nas estradas, em viaturas cada vez mais topo de gama. São um elemento indispensável na paisagem do Verão desta região e do país, os nossos emigrantes.

Agosto é também mês incontornável de festas e romarias por tudo quanto é aldeia e vila, com direito a procissão de velas, a espectáculos musicais, sermão e procissão e naturalmente ao habitual foguetório. Um misto de sagrado e de profano, que se mesclam e valorizam mutuamente, nas manifestações festivas por excelência.

Agosto é, assim, o lugar apolíneo da existência humana, a sua margem positiva, de satisfação, de alegria, de solidariedade.
Mas Agosto tem também o seu lado negro. Terrivelmente escuro. E este ano, tal como nos anteriores, voltou a marcar a sua presença abrasadora. Referimo-nos aos milhares de incêndios que voltaram a flagelar as povoações de norte a sul do país, aproveitando as altas temperaturas, a ausência de humidade, a negligência dos cidadãos e a falta de limpeza das propriedades públicas e privadas.

Nas piores semanas, registaram-se mais de 2500 fogos florestais, à média de 400-500 por dia, que voltaram a fazer as aberturas dos telejornais e as manchetes da imprensa durante a maior parte do mês, com cenas lancinantes de desespero e angústia. Cenário, desafortunadamente, que se prolonga no mês do triste Setembro…

Falamos de uma catástrofe ambiental que destruiu mais de 70 mil hectares de floresta e mato, só até 15 de Agosto, o que representa um milhão de toneladas de CO2 expelido para a atmosfera, a mesma quantidade que seria produzida por 29milhões de automóveis a circular entre o Porto e Lisboa, segundo a Quercus. Um absurdo sem sentido que denuncia os assassinos que andam à solta pelo país e que não olham a meios para desertificar o território, em função de interesses os mais diversificados. Não passam de criminosos abjectos e indesculpáveis, estejam ao serviço de empresas de venda de material de combate aos fogos, sejam lavradores que querem arranjar pastos para o seu gado, sejam especuladores imobiliários, sejam, na melhor das hipóteses, apenas cidadãos negligentes.

No seu combate estiveram e estão os heróis (e os mártires, tantas vezes) da nossa contemporaneidade, os bombeiros voluntários que arriscam a sua vida em holocausto pela defesa da vida e dos bens alheios. Eles merecem o nosso maior reconhecimento e gratidão, merecem todas as estátuas, todas as rosas, todas as palavras mais belas dos dicionários!... É por eles que vale a pena estar vivo!

Já entrámos em Setembro, um mês triste. Prenúncio de Outono, das folhas a cair, o sol longilíneo, a paisagem a tingir-se de melancolia, após a festa de Verão. Mês do retorno das estéreis e caricatas guerrilhas dos responsáveis políticos, agora que se aproximam as eleições presidenciais (não seria melhor os políticos continuarem de férias, se possível indefinidamente?); mês em que o processo “Casa Pia” teve já a sua sentença condenatória, a sua alegada mão pesada, certamente para mostrar que a Justiça em Portugal “funciona” (alguém acredita?); mês de duro arranque da selecção de futebol, enredada em querelas mesquinhas, em questiúnculas que fazem corar de vergonha quem gosta de Portugal.

Mas não há como escapar ao destino. As estações do ano são inelutáveis. Há que fazer o melhor para lhes sobreviver!

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