Correio do Minho

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Sessenta anos e um divórcio

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Ideias

2017-03-31 às 06h00

Margarida Proença

Dizia Erico Veríssimo que “O tempo faz a gente esquecer. Há pessoas que esquecem depressa. Outras apenas fingem que não se lembram mais”. O esquecimento é um processo natural, uma espécie de limpeza que procura evitar a sobrecarga de retenção de dados uma espécie de mecanismo de defesa que nos permite reter novas informações.
O século XX foi marcado por duas guerras mundiais terríveis; a primeira, que decorria há cem anos, envolveu todas as grandes potências mundiais, uma guerra de facto global, mas centrada na Europa, foi responsável pela morte de mais de 9 milhões de combatentes, e abriu caminho para significativas mudanças em termos políticos, económicos e culturais, entre as quais as condições que, objetivamente, tornaram possível, apenas vinte anos depois, uma nova guerra mundial, incluindo protecionismo, nacionalismos exacerbados e totalitarismos.

A segunda guerra mundial, o mais letal de todos os conflitos de que há memória, que envolveu a maioria das nações do mundo, onde morreram não apenas soldados, mas civis em massa, incluindo o lançamento de duas bombas atómicas, terá sido responsável pela morte de entre 40 a 72 milhões de pessoas. Se conversarmos com crianças de 7-8 anos, ou mesmo mais velhos, compreendemos que já lá vai há muito, muito tempo; para elas, a década de oitenta, é um mundo inimaginável e estranho de ausência de tablets, telemóveis e internet, que se não diferencia muito do tempo em que havia carruagens. Uma Europa absolutamente destruída, e com uma memória construída ao longo de séculos de oposição entre as grandes potências europeias, não é, para os mais jovens, fácil de imaginar - e muito dos mais velhos, fingem que não se lembram mais.

No rescaldo da guerra, renasceu uma visão, sempre tida por romântica, que andava há séculos pela Europa. Essa visão foi trazida para cima da mesa por líderes notáveis, com visão, orientação estratégica e liderança. Robert Schuman, dando voz a um plano elaborado com Jean Monnet, veio propor em 9 de maio de 1950, a criação de uma Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, com vista a formar uma mercado comum entre seis países fundadores: a França, a República Federal Alemã, a Bélgica, o Luxemburgo, a Itália e os Países Baixos. Os governos reconheciam que, num quadro de enorme devastação, de extrema insuficiência de recursos, a colocação em comum da produção do carvão e do aço e a fusão da indústria pesada iria tornar impossível uma nova guerra, até porque eram as matérias primas mais importantes para a produção de armamento. A ideia foi então - criem-se as condições para melhorar o nível de vida, e daí resultará a união entre os países. Mais fácil do que implementar medidas inovadoras em matéria política, a economia constituiria a base, o cimento de uma Europa unida.

O texto integral de Robert Schuman constatava que “A Europa não se fará de um golpe, nem numa construção de conjunto: far-se-á por meio de realizações concretas que criem em primeiro lugar uma solidariedade de facto”. A 25 de março de 1957, fez agora sessenta anos, foi assinado o Tratado de Roma, que incluía, de facto, dois tratados constitutivos - da Comunidade Económica Europeia, e da Comunidade Europeia da Energia Atómica. Começava assim uma experiência incrível, inovadora, difícil de classificar, com atrasos e recuos, com erros e grandes resultados.
Na Europa de então, outros líderes, outras grandes figuras, foram fundamentais para a pacificação de um continente destruído ; em 1963, foi assinado por Adenauer (chanceler da Alemanha, ao tempo, a RFA) e De Gaulle (presidente francês) um acordo de cooperação e amizade entre a Alemanha e a França, dois países históricamente rivais, mesmo inimigos fidagais.

Churchil apelou à criação dos Estados Unidos da Europa; Hallstein foi o primeiro presidente da Comissão Europeia, e foi em grande parte o seu entusiasmo, e a sua liderança que impulsionaram o processo de integração. Houve muitos outros, como Spaak, que foi decisivo na redação do Tratado de Roma, ou De Gaspieri, que colaborou na realização do Plano Marshall e na cooperação com outros países europeus.

Sessenta anos depois, o projeto europeu confronta-se com o retorno dos nacionalismos, das diferentes formas de racismo e do populismo, com o pedido de divórcio inglês (Brexit), com as ameaças de Marine le Pen e de outros políticos dos extremos partidários, com a falta de confiança dos cidadãos que responsabilizam o projeto europeu pelas dificuldades económicas e financeiras decorrentes da grave crise de 2008.

Os próximos anos vão ser complicados; mas neste quadro que se desenha, num quadro de uma globalização tornada irreversível pela tecnologia, continua a fazer sentido, talvez hoje dia cada vez mais, a existência da União Europeia sem a qual cada Estado, por si só, será irrelevante. E o resultado das fronteiras fechadas, do nacionalismo exacerbado e do racismo, já o conhecemos, a Europa já o pagou no passado.
Mesmo que o tenhamos esquecido.

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