Correio do Minho

Braga, sábado

Ser político é fixe, mas o Estado é que paga…

Os Novos Estatutos do Escutismo Católico Português

Ideias

2012-04-08 às 06h00

Carlos Pires

1. 'É necessário recorrer aos mecanismos de financiamento disponíveis no quadro europeu' - assim anunciava, há 1 ano atrás, o ex-ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, mais precisamente no dia 6 de Abril de 2011, cedendo, assim, à pressão a que Portugal tinha sido sujeito, após o pedido de ajuda pela Grécia e pela Irlanda, em maio e Novembro de 2010, respectivamente. A par, o Governo socialista apresentou um pacote de austeridade, fatal para a sua vida política, o qual, agravado pelo actual executivo, muitos sacrifícios tem exigido aos portugueses, seja nos cortes dos benefícios sociais, por um lado, seja no agravamento dos impostos, por outro lado.
Um ano depois, o país tem cumprido o plano a que se vinculou junto das instituições credoras internacionais, apesar de todos os principais indicadores da economia nacional (Produto Interno Bruto, consumo, emprego) registaram (previsíveis) agravamentos. De resto, o FMI aprovou aquela que já é a terceira revisão do Acordo, o que equivale a nova tranche de milhões concedida a Portugal. Na semana passada, ainda, o líder do principal partido da oposição no Parlamento alemão, Cristian Lange, à margem de uma visita oficial a Viana do Castelo, garantiu que no seu país 'todos sabem' que 'Portugal não é a Grécia' e demonstrou gratidão pelos esforços nacionais no equilíbrio das contas públicas.
“Portugal não é a Grécia” - desde logo, porque continuamos a fazer “jus” ao epíteto de “povo de brandos costumes”. Contudo, dúvidas não há de que se têm multiplicado os assobios, os insultos, as manifestações hostis contra os políticos e contra a própria polícia - veja-se os recentes incidentes no Chiado. Estranho seria que não houvesse reacções à austeridade. As pessoas sabem que hoje estão pior do que estavam há um ano atrás. E sentem-se revoltadas. Estou, contudo, convicto de que as políticas de austeridade, apesar de “impopulares’, têm uma base alargada de apoio. As pessoas percebem que a situação é dramática e que é necessário actuar. Mas não nos iludamos; embora a maioria do país possa apoiar a acção do Governo, certo é que a mesma maioria exige que as medidas façam sentido, que o esforço seja repartido e que a liderança política revele orientação e responsabilidade.
Ora, na semana que findou, a confiança no executivo de Passos Coelho resultou seriamente abalada com o caso dos subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos e pensionistas. Para pasmo de todos, no Parlamento, o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, admitiu que se tinha enganado quando em Outubro referiu que os subsídios voltariam a ser pagos em 2014. Por seu turno, Pedro Passos Coelho, veio confirmar que os subsídios regressam apenas em 2015, “mas de forma gradual” (!), sem indicar em que é que esta se concretiza. Ora, numa questão que interessa a milhões de portugueses, e de relevância para os respectivos bolsos, não podia o Governo, por um lado, errar (sem justificação!) nos prazos que apontou e não podia, por outro lado, utilizar palavras vagas e nebulosas, que impedem os portugueses de perceber com a necessária exactidão o que os espera!

2. Na 4ª-feira passada, um pensionista grego suicidou-se na praça principal de Atenas, em frente ao edifício onde as medidas são aprovadas, deixando um bilhete em que culpava os políticos pela crise financeira do país e, no limite, pela sua morte. No texto, o homem deixa claro que lhe era impossível viver com a pensão para que descontou durante 35 anos - “Não há outra solução que não a de um fim digno antes de começar a ter de procurar comida nos caixotes do lixo”. O trágico incidente originou revolta e por toda a cidade eclodiram confrontos entre a polícia e os manifestantes. O povo grego sofre e atribui a causa do seu sofrimento à acção irresponsável dos seus políticos.
Mário Soares afirmou, na 3ª-feira, dia 3 de Abril, ser 'preciso manter a coesão nacional', alertando que 'as pessoas estão a ficar desesperadas'. No mesmo dia, o carro em que seguia o ex-Presidente da República, registado em nome da Direcção-Geral do Tesouro e das Finanças, foi surpreendido em excesso de velocidade, na A8, em Leiria. Fonte da GNR, citada pelo “Correio da Manhã”, acrescentou que perante a opção de pagar logo a multa de 300 euros ou o condutor ficar com a carta apreendida, Soares terá dito: “O Estado é que vai pagar a multa”, alegadamente “em tom mal educado'.
Não me incomoda muito que o veículo tenha sido apanhado a circular 199 km/h. Agora, a ser verdade que Mário Soares tenha dito ao militar da GNR que, quanto aos 300 euros de multa, 'o Estado é que vai pagar', isso já me incomoda e muito. Admiro o percurso político de Mário Soares, que sempre conotei como homem dedicado à defesa da “res publica” e do interesse colectivo. Esse “herói” não é, de forma alguma, a pessoa que não assume a responsabilidade perante um fato adverso, relegando que o custo seja suportado pelo Estado, isto é, por todos nós. Esse princípio, censurável, é, afinal, a causa de todos os males que se vivem nas sociedades políticas, seja aqui, seja na Grécia.

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