Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Ser de Confiança

Por mais cultura do treino e treino baseado na ciência

Ideias

2018-09-18 às 06h00

João Marques

“Sobre este assunto, o líder da Coligação ‘Juntos por Braga’ recordou que a aquisição da Confiança tem por objectivo não apenas a requalificação do imóvel e a preservação da história da Confiança, mas essencialmente contribuir para a requalificação de toda a área envolvente. Ricardo Rio defende ainda que “é urgente” avançar com o concurso de ideias para o projecto de arquitectura e também com a candidatura a fundos comunitários que permitam concretizar um projecto tão importante para aquela zona sensível da cidade.”. Era isto que dizia Ricardo Rio, em 2012, de acordo com notícia de 21 de dezembro do ‘Correio do Minho’, sobre o dossier Confiança. Recorde-se que este foi um processo que uniu várias forças políticas, tendo o PS (que governava o concelho) e a Coligação Juntos por Braga acordado a compra do edifício da antiga saboaria e perfumaria Confiança, por 3,5 milhões de euros. Recupero, ainda, a histeria que existiu, então, a propósito do valor pelo qual a autarquia se comprometeu a adquirir o edifício. Foram muitas as vozes que insinuaram favores e compadrios. Foram múltiplas as avaliações e reavaliações formais, informais, assumidas e veladas que questionaram a exorbitância do investimento. De acordo com algumas delas, a Confiança, tal como estava, não valia sequer 2 milhões de euros. Já lá irei.

O grande motor da aquisição daquele espaço foi a requalificação do edifício e a sua reconversão em ativo cultural, fosse como espaço de apoio às artes, ou como museu dedicado à memória industrial de Braga, ou como tudo isto em conjunto. Este era o objetivo claro de que se partia, sendo certo que a visão de médio, longo prazo não poderia deixar de contemplar a repercussão positiva dessa intervenção no perímetro da fábrica.
E não restam dúvidas de que este era o mote e o grande desígnio do acordo entre os diferentes partidos políticos, reafirmado, aliás, em sucessivos programas políticos de candidatura às eleições autárquicas.
É, todavia, importante reconhecer que nunca nenhuma das forças políticas que se comprometeu com a aquisição da fábrica Confiança o fez incondicionalmente, isto é, sem ter em devida conta o concreto custo financeiro da operação de requalificação. Julgo ser pacífico para todos os bracarenses que seria imperdoável repetirmos erros estratégicos do passado, como o investimento insano no atual estádio municipal e piscinas olímpicas adjacentes. Ricardo Rio, como o demonstra esta declaração do início do processo, sempre foi muito claro a este respeito.

Tenho a certeza que o atual edil e o executivo que lidera tudo fizeram para concretizar essa vontade política, mas o facto é que as vias de financiamento não existiram e o município foi confrontado com a necessidade de tomar uma opção. Ou bem que mantinha a fábrica Confiança na esfera municipal, com os inerentes custos de manutenção a recair sobre os cofres da edilidade ou aproveitava o contexto económico favorável e as diversas manifestações de interesse na aquisição daquele espaço, por parte de investidores privados, alienando, por um preço interessante, o imóvel. E estas eram as únicas duas reais soluções.
A opção pela alienação, pelo preço que se conhece – 4 milhões de euros – dá, desde logo, a noção do ridículo em que caem todos aqueles que apontavam para valores abaixo dos 2 milhões de euros na altura da aquisição pelo município. Não entro em demagogias fáceis e, sem qualquer prurido, assumo a diferença de vender em 2018 ou em 2012, mas, ainda assim, alguém acredita que, neste curto prazo, um imóvel em decadência valorizou 100%, ou mais?

O preço atual de alienação vem vingar os que negociaram (e bem) o custo de aquisição e permitirão, na pior das hipóteses, que a autarquia “lucre” mais de 12%, um benefício que reverterá diretamente para os cidadãos, potenciando outros investimentos.
Por outro lado, a verdadeira questão que haverá que pôr (descontando a óbvia que contrapõe decadência ilimitada à requalificação imediata) é a das condições do caderno de encargos que acompanham a proposta de alienação. Em suma, se a autarquia prevê as condições mínimas de salvaguarda identitária e enquadramento cultural do edificado. E aí parece que não temos nada a temer, já que a cláusula 13.ª, do caderno de encargos, impõe obrigações muito claras de manutenção da traça, mas também de disponibilização ao público de áreas e espaços interpretativos e de exposição dedicados ao passado da fábrica.

Se é verdade que “o ótimo é inimigo do bom”, a solução agora encontrada parece responder aos anseios principais dos bracarenses.
E se é certo que o cenário ideal não verá a luz do dia, é bem diferente a sorte deste edifício face a muito do património histórico que, infelizmente, foi sendo pura e simplesmente devassado por decisões erradas do poder político. Desta forma ganha o erário público, requalifica-se uma zona degradada e contribui-se para a evocação da memória industrial da cidade. A política é a arte do compromisso. Não ganhámos tudo, mas todos saem a ganhar algo.

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