Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Sentado na esteira..., por Torres de Campos

Saboaria e Perfumaria Confiança – pela salvaguarda do seu património

Conta o Leitor

2011-07-06 às 06h00

Escritor

Sentado na esteira, entre católicos, protestantes, muçulmanos e crentes da religião tradicional, olho os olhos que me cercam e ouço as palavras mastigadas com sons desconhecidos. Vejo-me num mundo que me fascina, humaniza e abre-me a um mistério, no qual ainda sou peregrino.

Pedem-me que eu fale, que eu diga uma palavra, que tenha tanto de verdade como de eternidade. Nesta minha missão de dizer uma palavra que me ultrapassa, tenho consciência que pode haver uma pretensão para dominar, para impor a minha convicção. Por isso, tenho muito cuidado, quando digo uma palavra que alguém deseja no meio desta savana africana.

Sentado na esteira, sinto a alegria interior de estarmos juntos, sem o desejo de uns serem mais do que os outros. Sinto o entusiasmo colectivo, que nos envolve numa esfera enigmática de justiça, beleza e caridade, que liberta um raio de luz de heroísmo e até de santidade.

Não sei se estes pobres que clamam por viver são santos intercessores ou não, mas sei que têm uma força que me mo-vem o coração. Tão pouco fazem “milagres” entendidos como violação das leis da natureza, requisitos para a canonização, na Igreja Católica. Contudo, digo sem nenhuma retórica, fazem milagres que violam as leis da história, o milagre de sobreviver num mundo hostil, que em nada lhe facilita a vida, mas que a dificulta ao máximo. Fazem o “milagre” de se sentarem, sem nenhum ressentimento, na mesma esteira com um padre, que é branco e estrangeiro...

Sentados na esteira, em que o verdadeiro desafio com o qual cada um se acha confrontado é de ir para além de si mesmo. É acolher o céu que o habita. É reanimar a liberdade que o queima. É erguer-se do pó da fome, da miséria e deixar-se trespassar pela dor do seu mundo e reencontrar esse lugar inviolável onde ninguém pode entrar sem bater à porta do coração. É ter esperança de que um dia haverá vida para todos.
Sentados na esteira, conservando cada um a sua memória e a sua tradição, abrimos caminho para o acolhimento e para o diálogo, atitudes que possibilitam estarmos sentados na mesma esteira.

Aqui, o acolhimento é feito com muita docilidade. Tudo obedece a um ritual que não se pode ignorar ou desprezar. Segundo os africanos, quem não sabe acolher, também não sabe dialogar e nunca estará preparado para fazer festa com aquele que chega. Nas muitas visitas, que tenho feito as aldeia da missão tenho reparado que aqui existe “algo de especial” que tem tanto de primitivo como de inovador.

Fico muito impressionado com a forma com que me acolhem, com atenção com que ouvem as minhas palavras e com o gesto simples de partilharem o “nada” comigo... Saber dialogar com este povo é um segredo que passa para lá do mundo das palavras e do simples escutar. É como se eu nascesse de novo em cada visita que faço, em cada rosto que encontro, em cada mão que aperto e em cada sorriso que acolho na minha alma. Não há fecundidade nova, se cada um não aceitar sair e atravessar a palavra do outro, diz a sa-bedoria do povo makhua.

Vou descobrindo que dialogar está muito além de uma simples conversação amigável ou de um negócio de palavras formais ou informais. Dialogar nesta terra vermelha que piso, pressupõe um nomadismo, um procedimento peregrino, uma passagem, um acolhimento para que uma palavra viva se deixe atravessar por outra. É necessário ter a ousadia de sentar na esteira e acolher a hospitalidade que nos dão. Violar as leis da hospitalidade é tão grave como assaltar uma casa e roubar tudo.

É muito usual eu chegar a uma aldeia, ser convidado para me sentar na esteira e estar durante bastante tempo sem dizer uma palavra. Para a cultura dos makhuas sentar na esteira e saber ouvir as novidades e tão importante como se ser pessoa.

Saber e sentir-se acolhido requer uma atitude de disponibilidade interior, sem ideias preconcebidas, sem preocupação de converter o outro à nossa religião, á nossa ideologia partidária, desportiva ou outra coisa qualquer. Quando dialogamos com alguém, às vezes, podemos ter a aspiração de o querermos “salvar” das suas ideias e convertê-lo às nossas, que nos parecem as mais correctas.

Também aqui, em África nos pode passar isso pela cabeça, como se eu estivesse aqui para “salvar” os africanos que vem ao meu encontro. Se eu não me deixar “salvar” por eles, também nunca “salvarei” ninguém. Neste contexto, salvação significa promessa e esperança, fraternidade e solidariedade.

Sentado na esteira, deixo-me “contaminar” pela extraordinária vitalidade, pelo calor humano e pelo desejo profundo da paz. “Contaminar”, porque muitas vezes, temos medo de falar com outros, que são muito diferentes de nós, porque sempre achamos que nos irão “contaminar” com as suas ideias.

Caríssimo leitor e caríssima leitora, o que muitas vezes, nos falta para darmos sentido à nossa vida e evitarmos guerras e terrorismos desnecessários, é sentarmos na esteira, ouvir outras vozes, ouvir outros credos para descobrirmos quem somos, para descobrirmos o mistério da vida humana.

A esteira aproxima pessoas, que estão mais interessadas em saberem o que as une, do que o que as separa. Tenho a certeza, que se não nos sentássemos na mesma esteira, nesta linda e bela harmonia africana, já nos teríamos matado uns aos outros...

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