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Sem rosto

Escreve quem sabe

2020-11-20 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Está agora a fazer um ano que um hospital chinês em Hubei recebia um paciente com um vírus desconhecido. Dias depois – longe de sabermos do brutal rumo que teria – foi registado como SARS- CoV-2. Hoje a humanidade contabiliza mais de 50 milhões de infetados por aerossol, isto é, por minúsculas gotículas expiradas que ficam suspensas no ar em espaços fechados e mal ventilados. Deste número, 34 milhões recuperaram e 1,3 milhões morreram.
Já foram publicados mais de 70 mil estudos científicos. Mais de 880 milhões de testes de diagnóstico feitos. 50% é a percentagem aproximada de contágios provocados por assintomáticos. 10% a redução das horas trabalhadas nos países da OCDE nos primeiros três meses da crise o que leva, por exemplo, Portugal a ter a taxa de desemprego superior a 8% e ser o décimo país da Europa com mais novos casos por 100 mil habitantes, não obstante ter já realizado quatro milhões de testes.

Porém, esta bazuca de dados continua a exigir máscara. A covid-19 é mais que a maior pandemia do século. É o inimigo invisível número um do homem. Já teve 140 mil mutações. Não avisa, chega, espalha-se e mata. Seja branco ou preto. Rico ou pobre. Novo ou velho. Dispara para todo o lado (dores de cabeça, perda de olfato, obstrução nasal, tosse, falta de força, dores musculares, corrimento nasal, alteração do paladar e dor de garganta). Não há ricochete nem aceita geringonça. Os que não tombam, muitos deles ficam afetados no sistema respiratório. Outros ganham hipercoagulação, arritmia e insuficiência renal. Está garantido que nas pessoas que já tiveram o vírus, persistem anticorpos que podem ter vida até nove meses. As sequelas ultrapassam, na melhor das hipóteses, o meio ano. Há registos de cansaço extremo, dores de cabeça, falta de fôlego, perda de memória, défice de atenção e dores musculares. Os serviços de saúde estão em cuidados intensivos. Tudo somado, reivindicar direitos passa a ser obsceno.

Não estranha o leilão para o milagre. Há mais de 200 registos de vacinas em estudo. Com a bandeira na mão surgiu a Pfizer/BioNTech que garante 90% de eficácia – seguiu-se a Moderna, a prometer êxito em 95%. O anúncio injetou as bolsas e mostrou os dentes a milhões. O relato, explanado no diário britânico The Guardian, esclarece que as entidades reguladoras já deram aprovação a uma vacina que tenha pelo menos 50% de sucesso. Face a isto, o presidente da farmacêutica americana, Albert Bourla, não teve papas na língua ao aludir que estamos perante «um grande dia para a ciência e para a humanidade».
Mal ouvi a frase lembrei-me do americano Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua. Depois de ter saído pela escotilha da Eagle, proferiu palavras que viraram lenda: «um pequeno passo para o homem, um salto gigante para a humanidade». Oxalá este lembrete analógico possa ganhar sentido. Para já, estão mais de 40 mil voluntários a participar na denominada fase III do ensaio. O número pode impressionar, mas de nada vale enquanto não aparecer o carimbo que valide a operação.

Em contramão, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) colocou gelo no entusiasmo ao afirmar que uma vacina «por si só não será suficiente» para derrotar a crise sanitária. Tedros Ghebreyesus advertiu que o tempo que vivemos não é para complacência. Até porque, acrescentou, «inicialmente as quantidades serão limitadas» e focadas nos grupos de risco pelo que «isso ainda vai deixar muito espaço para o vírus operar».
A palavra imunidade espera que o céu lhe traga a certeza do viver. Também nós, ancorados nesta esperança, queremos voltar a mostrar o espelho do olhar. Vivemos sem alma. Às sortes. Autênticos transeuntes sem rosto.
Malgrado esta tragédia grega, temos hoje um tempo de oportunidade. Imperdível no reerguer da espinha dorsal no contacto com o outro. Há agora uma brecha para darmos valor ao que tivemos. Perder este tempo é deixar o Mundo acabar. Nós até podemos assobiar para o lado. Os que vêm a seguir jamais irão perdoar.

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