Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Sem Confiança perde-se a credibilidade

A serenidade dos nossos lugares sagrados

Ideias Políticas

2018-09-18 às 06h00

Carlos Almeida

No programa eleitoral que colocou Ricardo Rio a presidente da Câmara Municipal de Braga em 2013 constavam, entre outros, os seguintes compromissos: “Desenvolvimento de um programa para a recuperação do património edificado para a instalação de valências culturais e sociais de usufruto público. Nesta esfera, dar-se-á finalmente sequência ao Projecto para a Fábrica Confiança”; e “Criação do Museu da Cidade (a integrar na Fábrica Confiança)”.
Naquele contexto, que se seguiu à aquisição da fábrica Confiança, Ricardo Rio, ainda na oposição, avançava assim com uma ideia bastante clara sobre as suas intenções para aquele imóvel. Na altura, era visível o consenso alargado em torno da valorização do património industrial, das suas potencialidades culturais, das vantagens que uma intervenção no edifício poderia trazer para a regeneração urbana e para a aproximação à Universidade. Não foi à toa, pois, que Ricardo Rio esteve directamente envolvido no processo de aquisição da fábrica, assim como não foi inocente a definição dos compromissos eleitorais acima descritos.

É verdade que perto do final do anterior mandato, Ricardo Rio dava já sinais de que outros compromissos, nomeadamente com o interesse privado, podiam estar a ganhar terreno. Quando em 2017, poucas semanas antes das eleições autárquicas, procurei obter, sem sucesso, em sede de Executivo Municipal, o compromisso de Ricardo Rio de que não venderia a fábrica Confiança, era já bastante evidente que esse seria mesmo um objectivo da coligação PSD/CDS para o actual mandato. Nesse debate notou-se que Ricardo Rio sabia mais do que quis partilhar. Creio, ainda assim, que esta decisão não aparece (apenas) porque Ricardo Rio um dia acordou com vontade de vender a fábrica Confiança, mas porque alguém, que só ele poderá identificar, decidiu comprá-la. É para mim óbvio que a alienação da fábrica Confiança não é uma inevitabilidade, mas uma imposição externa que parece contar com a simpática conivência da coligação PSD/CDS , o que torna, na minha opinião, a situação ainda mais grave.

O que justifica esta opção agora? A falta de fundos nacionais ou comunitários não é razão suficiente. No momento da aquisição do imóvel o cenário era exactamente esse. No entanto, ninguém pode dizer hoje que o novo quadro comunitário, já em discussão preparatória, não irá ter programas de financiamento dirigidos a este tipo de projectos. Qual é, então, a pressa? Braga está neste momento a trabalhar para se candidatar a Capital Europeia da Cultura em 2027, e, também por isso, terá de investir a sério no sector cultural e criativo nestes próximos anos. Faz, pois, todo o sentido aguardar pelas oportunidades que certamente surgirão, o que nem representa custos para a autarquia, e tentar explorar outras soluções.

Sei bem que existem outros investimentos na área da cultura em curso, mas esse também não é um argumento válido. Referir-se-ão ao eventual projecto de requalificação do Cineteatro S. Geraldo, que, a concretizar-se, é muito importante e bem-vindo, claro. Mas repare-se no essencial desse argumento: o município quer justificar a venda de um imóvel municipal por cerca de 4 milhões de euros com a necessidade de investimento de um valor equivalente na recuperação de um imóvel que, por sinal, não lhe pertence. Porquê fazer depender o investimento no São Geraldo da venda da fábrica Confiança? Qual é o sentido disso?

Com a alienação da fábrica Confiança, Ricardo Rio não está a prescindir apenas de um valor patrimonial. Está também a abdicar de um valor indispensável à política e ao exercício de cargos públicos: a credibilidade.
Perante isto, o melhor mesmo é não baixar a guarda e começar desde já, por exemplo, a prevenir a retoma de outros processos. Não vá o diabo tecê-las e um destes dias ainda nos quererão convencer de que a compra dos imóveis contíguos ao Convento das Convertidas é um excelente negócio.

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