Correio do Minho

Braga, sábado

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Sem-abrigo em São Francisco: ex-líbris da indiferença

A velha e a muda

Ideias

2010-12-09 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Passados quase dez anos, voltei a São Francisco, e de novo para andanças de trabalho. Fiquei impressionada com a minha capacidade de me recordar de tantos detalhes, uma vez refeitos os percursos e revisitados os locais. É assim a nossa memória: está lá tudo.
Neste jogo de comparações entre o que vira e o que agora vi, notei uma maior presença de pessoas sem-abrigo. São Francisco é conhecida pela sua grande comunidade de sem-abrigo o que dificulta dar credibilidade a um assunto como este. É como se fosse tão-só mais uma característica urbana, igual a qualquer outra, tal como o facto de esta ser também uma das cidades mais caras para compra de habitação. O sem-abrigo é assim como que uma espécie de ex-líbris turístico, à semelhança da prisão de Alcatraz, dos eléctricos que percorrem a cidade, do Bairro Castro associado à comunidade Gay, dos armazéns Macy’s na Union Square ou das sandes de miolo de caranguejo.
Em todo o caso, sucumbi de imediato ao defeito de profissão e perguntei-me se o aumento de sem-abrigo nas ruas era ou não apenas uma percepção minha. Segundo as autoridades locais, o total de sem-abrigo nas ruas e institucionalizados ronda em 2010 os 6500, dos quais 2700 viverão efectivamente nas ruas. Associações diversas de apoio a esta comunidade contestam os números, estimando que os reais sejam bem superiores atendendo ao número de utentes que conhecem no terreno utentes. Seja como for, as estatísticas das autoridades locais mostram também que em 2001 os sem-abrigo nas ruas rondariam os 2000. Ora, significa isto, contas feitas, que mesmo com a guerra de números que sempre existe, o total de sem-abrigo no espaço de uma década aumentou. Afinal não era só a minha percepção que o dizia. Simultaneamente, constatei que, por um lado têm sido feitas promessa pelo actual Mayor, o Democrata Gavin Newsom, de reduzir em 50% o número de pessoas que habitam as ruas. Mas, em paralelo, a cidade debate-se com um tremendo défice que leva Newson a falar sobre a inevitabilidade de tempos muito difíceis. Ora como não há omeletas sem ovos, será difícil conciliar em 2011 a necessária austeridade com um investimento sério numa política de integração mais eficiente dos sem-abrigo. Mas as omeletas macrobióticas não precisam de ovos, sendo que nesse aspecto a política há já muito tempo que aprendeu a ser ‘macrobiótica’ ao seu jeito e por isso a conciliação pode ser parcialmente feita se se reduzir, na óptica de Newson, os apoios sociais, fazendo-os depender em simultâneo da prestação de serviço comunitário.
Lá como cá, há portanto um entendimento generalizado entre cidadãos e políticos de que quem é pobre prefere alimentar a sua condição através da subsídio-dependência, a ter de trabalhar. Cá acresce o facto de os pobres dos países ricos nos parecerem sempre infinitamente menos pobres do que os nossos e indignos de crónicas portanto. Os outros são-no por opção, os nossos são-no por fatalidade, “mas só alguns, porque a maioria o que quer é não fazer nada”.
Ocorre que a vida de cada indivíduo é um mundo que não cabe no pragmatismo de raciocínios simplistas e moralizantes. Lá como cá, as vidas amarradas a passados de más escolhas, ausência de infâncias, desafectos, solidão, rejeição, abusos, humilhação, são muitas. Não gostar de dormir numa cama e preferir dormir na rua, raramente será uma opção de vida inteiramente livre. Mesmo quando o sem-abrigo diz que sim, que é por opção, o mais certo é afirmá-lo por vergonha, por orgulho, mas sobretudo por esquecimento de uma outra vida que teve lá muito atrás, ou tão só por nunca ter conhecido outra… É uma estratégia de sobrevivência que o corpo e a mente aceitam de tal forma que o próprio sujeito acredita na mentira em que alicerça o quotidiano possível, ou não fosse ele um ser humano - esse bicho com uma ânsia quase raivosa de sobreviver mesmo quando nada parece justificar que por cá ande. Com temperaturas quase negativas, ao início da noite do dia 25 de Novembro, dia de Acção de Graças para milhões de americanos, dei por mim num eléctrico a olhar para um velho homem negro, envolto no desalinho organizado dos seus sacos, caixotes de papel e restos do que outrora terão sido casacos e cobertores. Tinha a “cama” feita em frente à porta de uma loja de colchões e camas. De pé, os seus olhos pousavam sobre a montra. Depois, deixou aquele enleio e começou a deitar-se, dedicando-se a todo um ritual de procurar conforto onde ele parece mais do que improvável. Seria a montra o seu consolo, um quase estar ali entre mantas quentinhas? Ou estaria o velho homem a pensar em como era boa a sua liberdade, dando razão aos que pensam que tudo se resume afinal às escolhas que se fazem na vida? De seguida, o eléctrico que já cumprira o seu horário de espera, retomou a marcha.

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