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Seja como for, António Costa...

A Galinha fala de choca

Seja como for, António Costa...

Ideias

2022-12-02 às 06h00

Carlos Abreu Amorim Carlos Abreu Amorim

Quem se estiver desavisado sobre o que se passa na política nacional e, de repente, aterrar em Portugal dificilmente conseguirá perceber o que se está a passar. Pela leitura das notícias saberá que o PS de António Costa venceu as eleições há escassos dez meses e que tem mais três anos e meio de legislatura para cumprir com uma maioria absoluta ao seu dispor. Conhecerá, ainda, que essa vitória se seguiu a uma crise na coligação material e parlamentar que o PS mantinha com dois partidos da extrema-esquerda e que estes resolveram quebrar, manifestando um défice de lucidez política para o qual não há palmatória bastante, não aprovando o Orçamento de 2022 e, assim, catapultando António Costa para a segunda maioria da história do seu partido.
Contudo, apesar da exatidão desses dados, o teatro da política portuguesa parece desenrolar-se como se nada disso tivesse acontecido.

O Governo socialista aparenta definhar. É inegável o enfastiamento com que António Costa enfrenta as tarefas governamentais quotidianas. Os ministros, quer os mais recentes quer aqueles que o acompanham há mais tempo, tresandam a capital político consumido e corroído. Os escândalos, endogamias, amiguismos e nepotismos, os casos e os casinhos, amontoam-se semanalmente – e embora nenhum, por si só, seja suficiente para causar um abalo irreparável ao Governo, inequivocamente causam um desgaste à sua imagem política com uma velocidade que espanta qualquer observador.
A desassombrada revelação do anterior Governador do Banco de Portugal sobre as pressões de António Costa não são propriamente uma novidade (para quem tenha estado atento à CPI do Banif e ao caso BIC) mas expõem aos olhos de todos a figura de um líder político que nunca conseguiu emancipar-se do caruncho partidário (“você nomeia pouca gente do PS”) e que nem sequer concebe a hipótese de subsistirem entidades públicas verdadeiramente independentes.

A última crise que levou à remodelação e deslocação de vários Secretários de Estado apenas serviu para confirmar a falta de linha de rumo político (sai quem discordou do ministro, embora o Governo tenha feito precisamente o contrário daquilo que o mesmo ministro preconizava) e, sobretudo, o afunilamento da capacidade de recrutamento governamental. O leque de escolha de Costa e do PS está claramente a mirrar em quantidade e qualidade.
Em dez meses o PS parece ter passado do Céu ao Inferno. Nem mesmo os alibis até há pouco utilizados para excluir qualquer ponta de responsabilidade própria continuam a funcionar: a culpabilização de Pedro Passos Coelho, por tudo e por nada, converteu-se num elemento do anedotário nacional que ridiculariza quem a profere; as costas largas do Covid-19 estreitaram-se quando Marta Temido tombou, só e desamparada; e já muitos perceberam que a guerra da Ucrânia não pode ser a nova salvação retórica de quem não tem soluções para o país e faz da governação e da política um jogo permanente de culpar todos os outros das suas próprias incapacidades.

Por outro lado, o principal partido da oposição, o PSD, mudou – de liderança, de estilo e de atitude. Montenegro tem o discurso certo, um sentido de oportunidade política irrepreensível e sabe perfeitamente qual é o papel do PSD na lógica da nossa democracia. Com ele, Costa não voltará a ter a indulgência de escapar aos debates no Parlamento ou o assombroso apoio do líder da oposição à transladação, direta e imediata, de um ministro das Finanças para Governador do Banco de Portugal.
Ainda assim, o tempo corre a favor de Costa. A mediocridade do seu Governo é disfarçada por uma comunicação social maioritariamente dependente e obediente. Os portugueses não parecem impressionar-se com o facto de estarmos a ser ultrapassados pelos nossos amigos europeus, nem por sermos um país onde cada vez se ganha menos mas cada vez se paga mais pelos bens essenciais. A falta de ambição de um país avelhentado e temeroso joga a favor.

António Costa deverá cumprir os três anos e meio que lhe restam. Não governará propriamente – será um gestor de promessas, um administrador dos dinheiros europeus e um encaminhador das culpas políticas (por restarmos quase como o último país da Europa) para longe de si e do seu partido.
Há sempre o presidente da república, bem o sei. Esta erosão política do Governo não pode ser ignorada e Marcelo Rebelo de Sousa até já deve temer que tal prejudique os seus próprios níveis de aprovação.
Mas ninguém no seu perfeito juízo poderá confiar num cenário político que dependa da ação de Marcelo Rebelo de Sousa.
Nem sequer o próprio, certamente…

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