Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Segue na linha do Minho

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Voz aos Escritores

2019-01-11 às 06h00

Fernanda Santos

Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea […]
Álvaro de Campos, in "Poemas"

Escrever sobre o passado não significa apenas fazer relatos de acontecimentos e factos. Significa mexer numa série de sonhos, sentimentos, emoções, sensações de medo e insegurança.
Tal como no poema de Álvaro de Campo também as minhas viagens de comboio entre o Alto Douro e o Minho me causavam um misto de emoções fortes e de sensações estranhas de insegurança. A hora da partida era tão constrangedora que, ainda agora, quatro décadas depois, sinto um certo desconforto a falar dela. Pode parecer um pouco exagerado este meu sentir, mas era tão verdadeiro quanto a recomendação feita pelo meu pai ao revisor do comboio: “esta menina segue na linha do Minho. Não se esqueça, por favor, de a avisar para mudar de linha”.

E eu ficava triste. Os meus olhos choravam de saudade e de angústia. Sentia-me como uma encomenda que ali era deixada, numa carruagem com bancos de madeira, para ser entregue no destino certo e com o devido cuidado. E circulava pelo comboio tanta gente, pronta a ajudar quem precisasse! Uns percorriam as carruagens tocando acordeão, outros vendendo os famosos rebuçados da Régua. Confesso que cheguei a imaginar-me com um letreiro na testa onde se lesse: “Segue na linha do Minho”, e os passageiros pensassem que eu era muda e incapaz de dar conta do recado. Para disfarçar, pegava num livro, que tinha sempre à mão, e devorava-o, com os olhos cravados no chão. As recomendações do meu pai martelavam, martelavam na minha cabeça, tal como os versos do poeta, nosso conterrâneo, Guerra Junqueiro: ”Desde aquela dor tamanha/Do momento em que parti/Um só prazer me acompanha,/ Filha, o de pensar em ti “[…]. Era um sentimento comungado por ambos. Fosse inverno, outono, primavera ou verão, sentia-se o mesmo frio das manhãs de viagem, a mesma angústia da partida, que no dizer de Pessoa “ vai do coração à pele/Que chora virtualmente embora alegre.” Podemos assim dizer que a vida não é mais do que uma viagem de comboio. Um comboio repleto de embarques e desembarques, salpicado por alguns constrangimentos, algumas surpresas agradáveis em certas estações, encontros e desencontros noutras. A viagem, contudo, faz-se cheia de desafios, sonhos, fantasias, esperas e despedidas. Parafraseando Fernando Pessoa, é em nós que as paisagens têm paisagem. Na viagem de comboio, após a descoberta inicial do contexto e da paisagem que nos rodeia, o olhar começa à procura de pormenores. Contemplação!

A viagem fazia com que a nossa estadia no comboio real se cruzasse com o imaginário, num conjunto de telas, que variavam de cor consoante a estação do ano, pintada pelas folhas e flores das diversas plantações. Na primavera, com as amendoeiras em flor, o branco e o violeta misturam-se com o verde das folhas. Se o inverno é marcado pela calma e pelo sossego, a transição do verão para o outono traz a azáfama das vindimas, com um descer e subir de cestos e tesouras de poda, nas encostas povoadas por trabalhadores. No outono, as folhas das videiras cobrem montes e vales com um manto de castanho e cobre.
É admirável a natureza e também o engenho e o labor humanos, ao plantar as vinhas e recolher e transportar as uvas, no meio de socalcos íngremes e encostas enormes. Em algumas partes do percurso, são visíveis casas das quintas do Douro, com os respetivos cais, as estruturas das adegas e o rio por onde, no passado recente, andavam os barcos rabelos, a transportar o vinho.

Reconhecendo a importância da paisagem e das atividades tradicionais de produção de vinho, em 2001, a UNESCO classificou como Património Mundial o Alto Douro Vinhateiro, região de montanhas e vales únicos, habitada desde tempos imemoráveis por povos que souberam adaptar-se ao longo da História, marcando sempre a sua presença de forma indelével, desde a pré-história, deixando um vasto património arquitetónico e cultural. É esta paisagem, dominada pelo rio Douro a serpentear as encostas da serra, que nos inspira agora tal como nos inspirou no passado. Do Sabor da minha infância ao Douro das viagens para o Minho, havia uma voz que viajava sempre comigo. Era uma espécie de guia. Era essa voz que me determinava o caminho. Às vezes, sussurrava-me. Outras vezes, gritava-me. Eu sabia que aquela voz me era familiar. Era a voz dos livros lidos. Falava-me dos cardos e das giestas de Junqueiro, das pitorescas ravinas de Campos Monteiro, dos socalcos de Torga ou das árvores com que crescemos de Isabel Mateus. Há neste panorama um excesso de beleza que, nas palavras de Torga nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir. […] Cada vinhedo é um tapete. Cada encosta uma história. Cada viagem um poema, um poema como este de Álvaro de Campos: Sossego, sim, sossego.../ Grande tranquilidade.../Que repouso, depois de tantas/ viagens, físicas e psíquicas!/ Que prazer olhar para as malas/ fitando como para nada!/ Dormita, alma, dormita!/ Aproveita, dormita!/ Dormita!/ É pouco o tempo que tens! /Dormita!/ É a véspera de não partir nunca!

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