Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Se o arrependimento matasse!...

O que nos distingue

Ideias

2014-06-30 às 06h00

Artur Coimbra

Após três anos a matraquearem doentiamente a tecla de que não havia alternativa para a desenfreada austeridade determinada pela troika e apaixonada e fielmente aplicada pelo governo de Passos Coelho, eis que o milagre acontece: afinal, a reestruturação da dívida teria sido bem melhor para os países resgatados, como Portugal.
Não é que uma proposta visando essa realidade não tivesse sido exaustivamente apresentada pelos partidos da oposição, em especial o PCP, sem qualquer resultado, em virtude da “razão da força” dos votos da maioria que circunstancialmente detém o poder, que não da “força da razão”, que não tem.
E ainda nos lembramos dos epítetos lançados, há meses, sobre um conjunto de personalidades nacionais e internacionais, com a credibilidade acima de qualquer suspeita, que se pronunciaram pela urgência e inevitabilidade de renegociação da dívida soberana, das taxas de juro e do período de amortização do empréstimo especulativo que os “mercados” fizeram a Portugal, em 2011. Acoimaram-nos de idealistas, antipatriotas, velhos do Restelo e outras barbaridades.
Agora, e passado um mês sobre o fim do resgate, os mesmos técnicos do FMI que passaram a vida a martelar na austeridade, vêm reconhecer que Portugal teria saído a ganhar com uma reestruturação da dívida externa do país.
Mais vale tarde do que nunca, assumir erros e distorções de propostas e de decisões que custaram imensamente caro aos portugueses. Que provocaram centenas de milhares de desempregados, centenas de milhares de emigrantes, centenas de milhares de novos pobres. Que obrigaram muitos milhares de portugueses a entregarem as suas casas aos bancos, a retirarem os seus filhos dos jardins-de-infância ou da universidade e os seus idosos dos lares, porque os rendimentos diminuíram ou simplesmente acabaram.
E o “arrependimento” do FMI não restitui empregos, não evita falências de empresas e pessoas, não devolve rendimentos, nem esperança, nem felicidade.
Por conseguinte, tudo vai continuar na mesma. Quem faliu, faliu; quem se aguentou, teve melhor sorte. E sempre se dirá que qualquer humano se engana, embora erros destes sejam indesculpáveis porque afectam milhares de seres humanos, que não foram responsáveis mas vítimas da “crise” que o capitalismo financeiro inventa, ciclicamente, como estratégia para recuperar lucros colossais.
O que já não se tolera é que o FMI pretenda, como fez no relatório sobre a 11ª avaliação do plano de resgate, imiscuir-se nos assuntos internos de Portugal, ao afirmar, relativamente aos 'novos chumbos de medidas orçamentais pelo Tribunal Constitucional', que estes podem implicar soluções alternativas para 2014 de 'qualidade inferior' ou quando ousa falar em 'tensões políticas” no nosso país.
Que o FMI fale de assuntos económicos ou financeiros, é a sua missão. Agora sobre política interna de Portugal, é intolerável que se permita fazê-lo. Porque Portugal é uma democracia, com os seus órgãos e os seus responsáveis e que não deixou de o ser por precisar de dinheiro para a sua vida. Porque o Tribunal Constitucional é um órgão de soberania (que existe nos países democráticos, e até na Alemanha), que tem de ser respeitado e honrado, goste-se ou não das suas decisões.
Se o FMI não gosta do jogo democrático e do Estado de Direito, que vá emprestar dinheiro para Angola, para a Venezuela ou para o Burundi. Aí talvez consiga eliminar os “contrapesos” soberanos da sua gula capitalista!...
O mesmo se diga de Alberto João Jardim e dos seus “muchachos” no Parlamento: emigrem, porque são absolutamente supérfluos!...



O que está a passar-se no seio do Partido Socialista, com o rol de acusações e até de agressões entre os candidatos e os seus apoiantes, é profundamente lamentável. Não há outra forma de o dizer.
E as vicissitudes que por lá estão a acontecer, não interessam apenas aos militantes socialistas, mas a todos os portugueses, porque, perante um governo esgotado e ineficiente, tem de apresentar-se uma alternativa forte e credível, que hoje não existe. Se por estes dias se realizassem eleições antecipadas, o mais certo era a direita voltar a ganhar, apesar de três anos de esmagamento da classe média portuguesa e do empobrecimento generalizado dos cidadãos, como agenda ideológica.
Porque o principal partido da oposição está feito em cacos, por estes meses, para gáudio do governo e dos partidos que o apoiam.
Pelo que já se viu, António José Seguro, apesar de vitorioso, tem os dias contados na liderança. Porque não oferece confiança aos socialistas, quanto mais aos portugueses. Apesar de simpático, civilizado, ou talvez por isso, já demonstrou que não consegue “descolar” da maioria. Não possui experiência governativa e a sua forma de oposição, demasiado branda e inconsistente, deu os resultados que deu. A sua imagem é a de menino de coro, que não chegará a lado algum. Não há maneira de o PS se afastar, nos resultados e nas sondagens, onde se esperaria uma diferença de 10% no mínimo sobre o PSD.
Agarra-se aos estatutos do partido, como bóia de salvação. Mas mesmo que, hipoteticamente, viesse a vencer em Setembro, seguramente é o candidato que a direita mais aprecia. O que, para a necessária e imperiosa alternativa política, é péssimo.
Em contraponto, António Costa tem “boa imagem” na comunicação social, elevada experiência governativa, no governo anterior e no município de Lisboa, é um candidato credível, apoiado pela grande maioria dos fundadores do partido e em quem os portugueses confiam, em pelo menos 60%.
Está encontrado o novo líder, e deixemo-nos de pruridos, porque os outros também os não têm. Que o PS rapidamente ultrapasse as suas quezílias, para se perfilar como alternativa vencedora em 2015, como uma política sólida, clara e de esquerda. Porque Seguro é a continuidade do “passismo e portismo” que os portugueses rejeitam claramente!...
E deixem-se dessa palhaçada das “primárias”, que não levam a lado algum, não reflectem a vontade dos portugueses, são objectivamente manipuláveis e só podem agradar a quem antecipadamente se mostra derrotado!...

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