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“Se não está a pagar o produto é porque você é o produto”

Comunicação em Crises e Emergências

“Se não está a pagar o produto é porque você é o produto”

Ensino

2020-11-04 às 06h00

Manuel José Serra da Fonseca Manuel José Serra da Fonseca

O documentário dramatizado “O Dilema das Redes Sociais” estreou há cerca de 2 meses no serviço de streaming da Netflix. Já tinha ouvido falar do seu conteúdo em forma de alerta face aos perigos das consequências da adição tecnológica, até que o vi. E creio que merece algumas reflexões, que muitos considerarão inconsequentes (pela inevitabilidade contextual), mas que não posso deixar de partilhar com quem se preocupa com conceitos como sanidade mental, privacidade e a obrigatoriedade do pertencer à tribo enquanto forma de integração.
Por questões profissionais, mas também por curiosidade e lazer, faço parte dos portugueses que têm contas em redes sociais. Tento gerir essa presença de forma racional, quer em termos de tempo, quer em termos de privacidade. No entanto, segundo o relatório Global Digital 2019, os meus concidadãos passam, em média, seis horas e 38 minutos do seu dia na Internet, sendo que, deste tempo, duas horas e nove minutos são nas redes sociais, onde cada individuo tem, em média, nove contas.

Depois de percebermos a dimensão nacional do fenómeno, voltemos ao documentário. Um dos aspetos mais inquietantes é o facto de muitos dos intervenientes que apresentam o seu testemunho serem ex-colaboradores de topo de empresas que dominam estes sectores (Facebook/Instagram; Google, YouTube, Twitter, Pinterest, entre muitas outras) e que, por questões éticas e de consciência, abandonaram os seus cargos e carreiras, optando por uma postura de “compensação”, enquanto ativistas da sensibilização para ao malefícios de certas ferramentas e procedimentos das redes sociais.
Não podemos desconsiderar os aspetos positivos das redes sociais, como o facto de permitirem a reunião e reencontro de pessoas e familiares, de contribuírem efetivamente para ações de solidariedade social e interpessoal, de serem uma excelente plataforma para ações de marketing social e de marketing de causas sociais. Mas e o reverso da medalha?

De acordo com os especialistas nestas temáticas, o treino com métodos de condicionamento pode consubstanciar a criação de produtos para as pessoas: por exemplo, um like numa publicação, funciona como uma recompensa gratificante e instantânea. Este tipo de interações produz um aumento dos níveis de dopamina e, consequentemente, da sensação de bem-estar. Alegadamente, este processo poder-se-á tornar frequente e sistemático, onde o reforço do referido bem-estar contribui significativamente para um eventual contexto de adição/dependência.

Paralelamente é factual afirmar que o recurso excessivo a este tipo de tecnologia tem consequências diretas como o isolamento, a depressão por exclusão social, a desinformação radicada nas notícias falsas e factualmente deturpadas, com interferência direta nos pilares que sustentam as nossas formas conquistadas de organização social e política. Custa-me a aceitar, por exemplo, a inexistência de patologia quando há adolescentes a solicitarem cirurgias plásticas para ficarem mais parecidos com as suas fotos filtradas (“Dismorfia de Snapchat”). Está em causa a sua autovalorização e identidade!

Isto acontece por uma competição desenfreada pela atenção dos utilizadores. É necessário estar (sempre) ligado e interagir. É fundamental manter as pessoas em frente ao ecrã. Porquê? Porque o modelo de negócio funciona assim. A televisão, a rádio e a imprensa são formatos de comunicação unidirecional (por regra). Dirigem-se aos seus públicos de forma estereotipada, pois são meios de comunicação de massa. A capacidade de “prender” a nossa atenção é muito mais limitada. E a informação gerada, também.
Online o negócio é bidirecional e altamente segmentado. Quanto mais o indivíduo interage, mais deixa um rasto de identificação que permite uma customização quase exclusiva de ofertas comerciais. Ou melhor, de todas as ofertas que, de forma muito mais provável, vão ao encontro dos seus interesses. Os serviços grátis da internet, não são pagos pelo utilizador, mas são pagos por anunciantes que veiculam as suas mensagens comerciais no contexto da “oferta” desses serviços. É neste sentido que a nossa atenção é o “produto” vendido aos anunciantes.

Todas as ação realizadas online são monitorizadas, acompanhadas, registadas e medidas: o que se pesquisa, o que se vê, durante quanto tempo se vê ou interage. Ou seja, são registos de perfis sociodemográficos e comportamentais como nunca houve. O muitas vezes apelidado de “Capitalismo de Vigilância” tem um grau de eficácia comercial sem comparação. A informação, que nós próprios disponibilizamos online, alimenta sistemas de gestão de conhecimento automatizados com capacidade de previsão sobre desejos, preferências e atitudes.

Isto pode ser muito bom (para algumas empresas) e muito mau (para os consumidores). Ou não. Desde que, de um lado e de outro exista ética e conhecimento. Urge assim informar mais os cidadãos sobre os processos e procedimentos que estão por trás destas plataformas, sem ser em tom de “teoria da conspiração”. Adicionalmente, é também urgente repensar o próprio modelo de negócio: mais regulamentação, mais legislação específica sobre privacidade digital, mais concorrência (o regime atual varia entre o monopólio e o oligopólio!) e um sistema fiscal que funcione como um incentivo para o tratamento parcimonioso dos dados e não “por atacado”.
Afinal, como sempre, o problema não está na tecnologia.

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