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Saudade: lembrança grata ou pesar pela ausência de algo passado

Cisnes negros

Saudade: lembrança grata ou pesar pela ausência de algo passado

Escreve quem sabe

2020-01-13 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Diz-se que saudade é intrinsecamente sinal português. Diz-se que saudade representa um fado a que não se pode fugir ou negar, apenas (com)viver e, quem sabe, superar.
Num momento “típico” de balanço e perspectiva – no caso, início de ano e década – apesar do dia seguinte ser, tantas e tantas vezes, não mais do que isso mesmo: um dia repetido, sem qualquer passo de magia ou ruptura transformadora – a saudade assume-se característica mais revelada, balançando entre um tempo vivido (e que gostaríamos de transportar para o presente) e um tempo desperdiçado e que desejamos não repetir. No fundo, traduz a ausência de um presente e de um futuro que não se adivinha melhor ou de um vazio que os mesmos presente e futuro persistem em não preencher de forma positiva.

Acredito que, na cidade, este fenómeno chamado saudade também se manifesta, balançando entre um valor antes construído e que, hoje, reconhecemos insuperável e um vazio ainda por preencher e que, na realidade, ora desdenhamos, ora ignoramos, ora não sabemos o que fazer e como transformar. O primeiro trata do património, O segundo refere-se aos denominados vazios urbanos.
Vazio urbano é um “naco” territorial ou edificado que, ao longo da construção da cidade, foi ficando por ocupar e construir, constituindo, hoje e muitas vezes, “ilhas” expectantes de solo disponível ou edificado devoluto, rodeados de urbanidade mas, eles próprios, incapazes de gerar vida urbana.

Tidos como exemplos de degradação ou abandono da cidade, são tantas vezes “entaipados” e secundarizados, numa lógica de negação e ocultação, raramente de transformação e superação.
Valor patrimonial é aquela realidade artificial e transformada pelo homem – como tal, cultural – que retrata a nossa capacidade intemporal de criar riqueza e significado, a tal ponto que, hoje, na ânsia e voluntarismo de tudo garantir e perenizar, ousamos rotular e classificar para depois restringir e preservar (em nome desse dito valor maior).

Estas duas “faces” da mesma cidade são incontornáveis, convivem lado a lado e, para esta mesma cidade, são, simultaneamente, risco e desafio, sempre oportunidades únicas e irrepetíveis. E são risco e desafio porque nos interpelam e confrontam quer com a nossa capacidade de criar, inovar e transformar “vazios” em construção com significado e valor, quer com a nossa propensão de tudo superar através do excesso e exagero, ora tudo admitindo em nome da criatividade e abordagens diferenciadas, ora tudo restringindo e condicionando em nome da cristalização de realidades patrimoniais que, de tanto mesmo e desconfiança da nossa acção, apenas visam restringir e não acrescentar.

O vazio urbano é uma oportunidade de construir cidade, de completar e complementar o tecido urbano e um desafio à construção do património de amanhã. Encerra um apelo à criatividade, diferenciação, integração e (re)interpretação. Todavia, se assim é, este vazio urbano também corre o risco do exagero, da liberdade sem critério ou do critério arbitrário, não se condicionando nem acomodando a mecanismos de equilíbrio e sedimentação de opções e leituras urbanas que se desejam coerentes e válidas (isto é, produtoras de cultura que significa saber ler o que existe, saber acrescentar riqueza, valor e singularidade).

O valor patrimonial é uma oportunidade de prolongar (na História) a riqueza cultural que soubemos construir e que, acreditamos, será útil para o futuro, seja para entendimento do passado, seja como herança feita valor cultural único e irrepetível. Porém, se este valor patrimonial enfrenta o desafio da reinterpretação e da leitura da modernidade sobre uma preexistência e da possibilidade de se enriquecer com novas camadas de valor cultural, não é menos verdade que este valor patrimonial ameaça reflectir apenas a cristalização de uma imagem, de um valor físico cingido no tempo, sendo objecto de classificação, de restrição, de musealização em nome da “nossa desconfiança” sobre a “nossa capacidade” de acrescentar valor (e não destruir e deturpar).

Entre o vazio urbano e o valor patrimonial, há um caminho a percorrer e a optar, há a cidade construída e que ensina e a cidade expectante e que precisa de ser acompanhada e atendida, há a cidade sabiamente transformada e a cidade duramente esquecida e devoluta. Uma não é mais do que a outra. Uma não é menos esperançosa do que a outra. Encontrar o equilíbrio entre as partes é o desafio. Será este que permitirá perder o medo que tolhe a “saudade boa” (e que nos leva a restringir, condicionar e musealizar) e possibilitará controlar a ousadia sem medida e superar a “saudade má” definida pela falta de critério…
Fazer da cidade preenchida oportunidade de prolongamento “do que melhor sabemos fazer e transformar” e da cidade por preencher oportunidade de aprendizagem e enriquecimento é desafio que todos devemos enfrentar e superar. Em nome de uma cidade de que se vai fazendo de forma continuada e, serenamente, estimulada!

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