Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Sarko

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Ideias

2018-03-23 às 06h00

José Manuel Cruz

Acampanha presidencial de Sarkozy de 2007 foi faustosa, circulou dinheiro a rodos, e ele ganhou. Num instante chegamos a 2011, desenha-se uma intervenção militar ocidental na Líbia. Muito contribui a França para a expedição, até com fundamentação filosófica sarrabiscada por Bernard-Henri Lévy, asneiras contra as quais muito se tem pronunciado Michel Onfray, que leio e oiço com subido agrado.
Ora, nas vésperas da incursão ocidental, entrevistado, Kadhafi diz de toda a sua surpresa, revelando ter apoiado financeiramente Sarkozy, no fundo, tendo-o levado ao Eliseu. A Médiapart – espécie de associação desbocada de jornalistas, que investigam e melhor uns papeluchos lhes caem no regaço – faz eco da notícia, e inicia uma série de publicações sobre o assunto. Diga-se que Sarkozy nunca citou a Médiapart a tribunal por calúnia odiosa. A Justiça embolou, mastigou o furo como vaquinha ruminante, e nada avançou contra o ex-presidente, abrindo um inquérito mais tarde, em 2013, que culmina, por estes dias, com a detenção de Sarkozy, para audição e confronto de provas, se é que as há.
Ganhou Sarkozy o jeito às campanhas de muitos zeros. Na de 2012 também gastou acima do estabelecido por lei, tanto que François Copé se veria na obrigação de distribuir facturas por várias freguesias, no que ficou conhecido como «affaire Bygmalion», estratagema pelo qual seria entalado, sacrificando-se pelo chefe.
Sarko sai de cena, mas resolve regressar para novo desafio eleitoral. Vai às primárias do partido e perde para Fillon. Com um partido socialista francês em cacos, Fillon tem tudo para chegar à presidência. Macron era ainda um projecto puramente pessoal, sem massa crítica. Até que Fillon é recambiado para casa, em desgraça, por coisa de trocos, se comparada com os cinquenta milhões de alegado subsídio dos serviços secretos líbios a Sarko. Trama-se, Fillon, por lana caprina, por useiro e vezeiro nepotismo, por uns dinheiritos que teria arranjado para os filhos, como consultores jurídicos de curso por terminar, e para a esposa, como assistente parlamentar, sem que a senhora jamais tivesse posto pé no palácio Bourbon.
Do berbicacho dos dinheiros ainda Fillon daria recado. Pior foi uma história de fatos de alta costura, oferta de um advogado de negócios franco-libanês, supostamente amigo de Fillon, mas muito mais amigo de Sarkozy, fatos cuja factura e cheque de liquidação viajaram até à redacção do «Le Parisien». De um momento para o outro, Fillon era uma espécie de mantida, vestida e calçada por um «grand ami», contra a habitual coxa afastada. Saiu, Fillon, de rabinho entre as pernas, para uma semana de retiro e caça na Escócia, em casa de amigos, e para uma consultora financeira, que não deve ser gerida por quem lhe seja estranho.
Estou em crer que Fillon teria ficado no seu canto, sem tugir nem mugir, não fosse o tal franco-libanês, Robert Bourgi, ter relatado proezas, repetidamente, aos microfones da BFMTV. Em referência a uma conversa de Bourgi com Sarkozy, a propósito das indelicadezas de Fillon, bem o ouvimos dizer «Sarko, je vais le niquer», que se é expressão que passa na tv francesa, pior cabe em jornal português. Mais refere Bourgi que nada Sarkozy lhe replicou, que nenhuma palavra deu para o demover. Tê-lo-ia ouvido, acrescenta Bourgi. Leva dois meses e picos, o episódio. Acredito que Fillon, que foi primeiro-ministro sob Sarkozy, deveria saber e ter como provar alguma coisa, adicionalmente. Porém, ele ou não, o facto é que Sarko está em trabalhos.
À escala portuguesa, cinquenta milhões é uma bela maquia; à escala francesa, são uns trocos. Talvez Sarkozy nunca tivesse chegado a colher benefício privado dos fundos líbios, embora haja quem tivesse aproveitado para adquirir propriedades. Facto é que, após feérica campanha, Sarkozy foi eleito, e aí começam as más-línguas, nomeadamente as que sustentam que a libertadora invasão da Líbia foi orquestrada na altura de devolver favores, para cobrir traços, para iludir que ele fosse alguém que andasse às sopas do líder líbio.
Este é um dos tais casos em que cada um acredita no que quer. Causas e efeitos fora de questão, certo é que Kadhafi teria sempre uns milhões para disponibilizar, e certo é que muito jeito eles dariam a Sarkozy. Certo é, também, que há informação sobeja de que dinheiro líbio teria circulado por grupúsculos políticos na Europa. Certo é, finalmente, que a intervenção militar na líbia excedeu o mandato da ONU, e que nada de bom trouxe ao país e à região. Engraçado, mesmo, é o Putin nada ter a ver com esta história.

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