Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Sarilhos na Itália

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2013-03-01 às 06h00

Margarida Proença

A Itália está no centro das preocupações de todos por estes dias por causa dos resultados eleitorais e, no Vaticano, pela resignação de Bento XVI. Discute-se qual deverá ser o perfil do próximo Papa, discutem-se as alternativas de constituição do novo governo italiano. Em qualquer dos casos, as decisões que forem tomadas influenciarão, porventura de forma determinante, o futuro de todos, ainda que neste mundo tão perigosamente volátil seja difícil antecipar como.

Na edição de quarta-feira do jornal Público citava-se um jovem que dizia mais ou menos isto: “enganaram-nos durante anos e agora vinguei-me. Não se vão entender. Ganhei”.

A ciência económica tem uma longa tradição de análise dos ciclos eleitorais e dos seus resultados, partindo da hipótese de base que os agentes económicos, por exemplo consumidores ou eleitores, atuam de forma a maximizar os seus interesses, as suas preferências pessoais. Em democracia, isto significa que será de esperar que o eleitor vote em candidatos que espere venham a implementar políticas que lhe permitam melhores condições de vida; para fazer tal escolha, baseia-se no que conhece do candidato, na sua experiência, nas provas que deu.

Por isso mesmo, os candidatos prometem amanhãs sorridentes ou, se estiverem já no poder, têm incentivos para alteram o seu comportamento de forma a sinalizar competência acrescida sobre os rivais. E entretanto os partidos constroem e reforçam ligações, reputação e ideologias facilitando a perceção dos eleitores do que poderão esperar em termos de bem-estar e qualidade de vida. Enfim, isto é um quadro geral, bastante simplificado mas aceite na generalidade. Depois há muitas questões que têm sido discutidas, como saber o que é de facto mais importante para a tomada de decisão dos eleitores - se o desempenho real da economia, as variações nos impostos ou no desemprego, na provisão de bens ou serviços públicos, na construção de infraestruturas, na qualidade das instituições, entre outros.

Desde os anos 70 que alguns autores mostram que os eleitores favorecem quem lhes parece garantir níveis baixos de inflação ou crescimento económico e emprego elevado e assim os governos que procuram ser reeleitos implementam políticas expansionistas no período pré-eleitoral. Funciona como se os eleitores premeiem, ou penalizem, os governos com base nos resultados das políticas macroeconómicas, embora diferentes contextos políticos, culturais e socioeconómicos matizem bastante tudo isto. Por outro lado, a crescente globalização e interdependência económica dos países permite que os comportamentos de governos num dado país, ou a eficácia da sua manipulação, determinem as escolhas dos eleitores noutros.

Em qualquer dos casos, fortemente determinada pela minha formação, sempre assumi que de uma forma mais ou menos naïve, as decisões dos eleitores no momento em que lhes compete escolher são racionalmente determinadas, ainda que possam ser manipuláveis. Mas 25% dos italianos votaram como o sugerido pelo jovem citado pelo Público. “O meu movimento é um anti detonador, regula o medo”, afirmava Beppe Grillo ao The Economist.

Não tenho a certeza que o comportamento não seja racional, dado que traduz uma perceção da relação entre o direito a governar, a política definida e os seus resultados - mas transforma o eleitor num mero espetador. E isso torna tudo possível. O que é perigoso.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.