Correio do Minho

Braga, segunda-feira

São Martinho e o Dom da Partilha

A Europa paga aos agricultores para não produzirem?

Escreve quem sabe

2016-11-11 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Estamos no tempo de São Martinho, cujo dia se celebra a 11 de novembro, mas convém lembrar que este não é o bispo de Dume, mas sim o de Tours, cidade francesa situada nas margens do rio Loire, região célebre pelos seus palácios (châteaux).
Martinho nasceu na antiga cidade de Savaria, na Panónia (região da atual Hungria), no ano de 316, em pleno império Romano, filho de um comandante do exército romano, no seio de uma família que adorava os deuses mitológicos do império. Seu pai traçou, desde muito cedo, o seu destino: pertencer à cavalaria do exército imperial.

Aos 15 anos de idade, o jovem Martinho foi alistado, por seu pai, contra sua vontade, pois o ingresso na cavalaria afastá-lo-ia dos seus amigos cristãos, aos 10 anos entrara para um grupo de catecúmenos.
A lenda que celebrizou Martinho teve lugar nesta fase da sua vida, crê-se que ocorreu pelo ano de 337, próximo da atual capital da Picardia, a cidade de Amiens, tinha ele 21 anos. Ao partilhar metade do seu manto, num dia de inverno muito rigoroso, com um mendigo que tilintava de frio, e a outra metade com um outro mendigo, foi a região onde estava brindada, inesperadamente, com três dias de sol radiante e ainda hoje conhecemos estes dias como o verão de São Martinho.

Refira-se que Martinho só seria batizado depois disto, aos 22 anos de idade, em 338. Martinho segui o seu caminho vindo a ser bispo de Tours, mas, embora sendo um homem culto, foi na ação prática do quotidiano (caridade, fundação e construção de igreja, mosteiros e escolas) que se distingui com um notável serviços aos outros.

Tudo isto a propósito de São Martinho, porque este artigo será publicado no seu dia canónico, mas também do pensamento de Baden-Powell, no seu “testamento espiritual” - forma como identificamos um texto do fundador, descoberto no cesto dos papéis do seu gabinete de trabalho, depois da sua morte, do qual, de entre outras mensagens, ressalvo a seguinte:
«Creio que Deus nos colocou neste mundo encantador para sermos felizes e apreciarmos a vida. (...) Mas o melhor meio para alcançar a felicidade é contribuir para a felicidade dos outros.»
É o dom da partilha, que a lenda de Martinho muito bem ilustra e que o fundador do escutismo, a todos, desafia a seguir, para descobrirmos a nossa própria felicidade e promovermos a felicidade dos outros. O verdadeiro dom da partilha tem que ser embrulhado com a gratuitidade e atado com a fita da discrição, caso contrário tornar-nos-emos mercadores de uma feira de trocas ou de uma feira de vaidades.

Na alocução do Ângelus, de 11 de novembro de 2007, o Papa Bento XVI disse, a propósito: «O gesto caritativo de São Martinho se insere na lógica que levou Jesus a multiplicar os pães para as multidões famintas, mas sobretudo a dar-se a si mesmo como alimento para a humanidade na Eucaristia. (...) Com esta lógica de compartilhar se expressa, de modo autêntico, o amor ao próximo.», desta forma, o papa leva-nos a percecionar que a essência deste dom é o Amor.
De igual modo, os escuteiros, na oração do escuta, dizem: «Senhor Jesus, ensinai-me a ser generoso, / (...) / a trabalhar sem procurar descanso, / A gastar-me sem esperar outra recompensa, / Senão saber que faço a Vossa vontade Santa.»

Na educação escutista, esta disponibilidade de prestação gratuita de “ajudar os outros” faz-se pelo exercício da boa ação diária e, de vez em quando, pela participação em ações coletivas, da iniciativa do movimento ou de outras entidades que se dedicam a ações de solidariedade.
Porque este santo é o padroeiro dos mendigos, e hoje temos muitas e complexas formas de mendicidade, e porque “no dia de São Martinho: bebe o vinho e deixa a água correr para o moinho” ou “vai à adega e prova o vinho”, desejo-vos, caros leitores, um bom dia de São Martinho, nas palavras de Santa Teresa de Calcutá «só se possui verdadeiramente o que se dá».

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