Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Salvadores da Pátria?

As Bibliotecas e as Escolas

Ideias

2014-02-24 às 06h00

Artur Coimbra

1. Pode um país estar melhor e um povo estar pior, como se ouviu declarar por estes dias o líder parlamentar do PSD, numa tirada que tem suscitado a maior perplexidade?!...
Na verdade, pode, como se verifica em outros países, de regimes oligárquicos e ditatoriais, cujas lideranças se locupletam de bens e riquezas, sobrando a miséria ou a sobrevivência para as populações.
Pode mas não deve, sendo encargo do governo repartir os sacrifícios e os benefícios, se a eles houver lugar, em condições de justiça, pela generalidade da população. É para isso que é eleito, para reforçar a coesão social, não para empobrecer a população e afirmar que “o país está melhor”.
Que me interessa que as contas públicas estejam melhores, se há milhares de portugueses com fome?!...
O que se tem verificado é que está no terreno e nos media uma estratégia global de intoxicação da opinião pública, visando branquear o presente e o futuro. Convém não esquecer que foi numa meticulosa estratégia de propaganda mediática, com base na mentira, que a direita chegou ao poder, há 3 anos!..
O governo anda numa fona, a desmultiplicar-se em declarações, no sentido de fazer crer aos portugueses que o pior já passou e que estamos no bom caminho, que a recuperação económica está aí. Para o país, o que quer que isso seja ou represente, não para a população, como eles próprios reconhecem.
Juntam alguns indicadores alegadamente favoráveis, e jogam com a recuperação do défice no último trimestre do ano findo, “esquecendo-se” de reconhecer que o ano de 2013 foi ainda de recessão, ou seja, de crescimento negativo, se o negativo é crescimento, e que 2014 continua com doses cavalares de austeridade, que parece em nada estar a resultar.
Passos Coelho assumiu, desde a primeira hora, que foi incumbido, não pelos eleitores mas por determinação divina, da missão salvífica de Portugal. Pensa-se um “salvador da Pátria” (esquecendo-se que o último já morreu em 1970…), contra tudo e contra todos. Contra o povo, seguramente, embora alegadamente a favor do pais, como esta gente proclama.
E o irrevogável Portas, que, com as suas birras infantis, cavou um prejuízo de 800 milhões de euros em Julho passado (mas nem ele nem os outros piam no assunto…), que todos estamos a pagar, passa a vida a tentar ludibriar os incautos anunciando a “boa nova” que em 17 de Maio próximo acontecerá a libertação de Portugal, como um novo 24 de Junho ou um renovado 1º de Dezembro, de reconquista da independência nacional. Bem poderia centrar o “milagre” quatro dias antes, a 13 de Maio, na Cova da Iria!...
A demagogia não aborda a catastrófica situação de descalabro em que o país se encontra e que os governantes, em vez de resolver, agravaram drasticamente nestes anos.
Portugal tinha em 2010 um crescimento positivo de 1,3 do PIB, uma dívida de 90 mil milhões de euros (94% do PIB), um défice de 7% e uma taxa de desemprego inferior a 10%. Mais ou menos com estes dados, a direita obrigou o povo português a submeter-se à ditadura da tróica, em 2011, para poder enfim chegar ao poder.
Em três anos, de 2011 a 2013, o PIB desceu 5,8%. O desemprego chegou aos 16/17% (no mínimo). A dívida pública passou para os 129,3%. O rendimento das famílias baixou cerca de 10%.
O país empobreceu substancialmente. Centenas de milhares de portugueses rumaram à emigração, por falta de oportunidades neste país.
Os jovens sem futuro agarram-se a estágios profissionais, a salários de miséria e de precariedade ou abalam, certamente para nunca mais voltarem.os três anos de 2011 a 2013 o Pib desceu 5,8% - valor nunca vivido na economia portuguesa. O desemprego aumentou de 10 para mais de 15%; a dívida passou de 94% para 129, 3% e Sócrates pergunta se foi pedido um resgate para 94% como será com quase 130%?
E acrescenta Sócrates, o rendimento bruto das famílias portuguesas desceu nestes três anos em mais de 8%, desigualmente distribuídos. Posso acrescentar que a minha reforma foi roubada pela direita numa percentagem muito superior. Sócrates disse que o Governo privilegiou como vítimas funcionários públicos e reformados fundamentalmente das classes médias.
Apesar das subidas insignificantes nos dois últimos trimestres de 2013, o PIB desse ano desceu em 1,4%.
Enfim, Sócrates fez um retrato desastroso de três anos de governo desta direita execrável, incompetente e mentirosa.
É neste dramático panorama que a gente que pretensamente nos governa tem a lata de se vir vangloriar das suas façanhas “patrióticas”, escondendo os custos humanos do tão louvado “ajustamento”.


2. Todavia, na mesma altura em que Passos se afadiga a acenar com o mirífico e utópico fim da crise e Paulo Portas até colocou um relógio em contagem decrescente rumo ao dia libertador de 17 de Maio, vieram os desmancha-prazeres do FMI, do BCE e da CE afirmar que a austeridade é para continuar nos próximos anos e exigem mais sacrifícios aos portugueses, anulando todas as esperanças, frustrando as melhores expectativas de um mundo 'cor de rosa'...
Afinal, depois de tantos sacrifícios, tão desaustinada e estúpida austeridade, a situação não se altera nem um pouco. Devemos cada vez mais, estamos cada vez mais pobres! Essa é a matemática iniludível! De que vale ter devastado todo um povo com um ror de sacrifícios cujos efeitos não se lobrigam?
Para que serviram tantas falências de empresas, tantos milhares de desempregados, tantas insolvências de famílias, obrigadas a devolver casas ao banco, retirar as crianças dos jardins de infância e os jovens das universidades?!...
Parece que para nada. Ou melhor, para o país, que não para os cidadãos!...


3. E ainda vem aí mais massacre, mais assalto aos bolsos já depauperados dos portugueses. Falam por aí em cortes de 2 ou 3 mil milhões de euros, que seguramente vão voltar a recair sobre os suspeitos do costume, os funcionários públicos e os reformados, transformados em bode expiatório da incompetência governamental para procurar outras fontes de financiamento, nas PPP ou no aparelho de Estado (Assembleia da República, Presidência, Governo, assessorias)... Um governo forte com os fracos, sem margem para dúvidas!...
É que, soube-se no fim-de-semana, o governo já terá apalavrado com a tróica, clandestinamente, novos cortes nos suplementos e nos salários da função pública, de forma permanente, quando ainda há meses mentia que seriam temporários.
Mas de um governo que ganhou eleições com base na impostura, no embuste e nas falsas promessas, tudo há a esperar, pese a lavagem Omo que foi debitada no Coliseu dos Recreios até este domingo…
As más notícias só serão, contudo, conhecidas e sentidas após as eleições para o Parlamento Europeu, em 25 de Maio!...
Um governo que engana, que ludibria, que encobre, que trabalha nas costas dos cidadãos, que não é transparente, que não fala verdade, não pode ter crédito e só pode ter os dias contados. Está a merecer a sua “Praça da Independência”.
Por meras razões de higiene democrática!...

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