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Aprender para ensinar a adaptar

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Ideias

2021-02-16 às 06h00

João Marques João Marques

Em tempo de guerra não se limpam armas, costuma dizer-se a propósito da urgência da mobilização de recursos para situações de crise.
Ora, se há tempo que se pode classificar como de crise (sanitária, social, económica), esse tempo é o que vivemos. Não darei mais palco ao vírus do nosso descontentamento, mas sempre direi que é por ele, ou melhor, contra ele, que vale a pena celebrar todas as pequenas vitórias que nos recordam que houve, há e haverá um mundo para lá da doença.
É bom poder propagar boas notícias e não repetir infindáveis estatísticas sobre o número de casos, internados e falecidos. E é bom também que a razão para essas boas notícias radique na abertura, na interação entre as gentes e na cultura da viagem e da interceção de mundos e vivências, onde o centro existencial se desloque do confinamento para o deslumbramento.
Braga, ao ver reconhecida a excelência da sua vocação turística, é colocada num patamar inaudito e, porventura, impensável de exposição internacional. E é tanto mais incrível quanto ainda há uma década pareceria loucura indicar o concelho para o top 10 dos destinos ibéricos a não perder.
Sim, é verdade que sempre aqui tivemos monumentalidade, hospitalidade, saberes e sabores que justificassem destaque. Só que é igualmente verdade que o potencial se encontrava totalmente abafado por lógicas locais que claramente desbaratavam, intencional ou negligentemente, o capital que todos sabíamos estar ao dispor da valorização do concelho, da região e do país.
À medida que assistimos a uma clara aposta na abertura e divulgação do que de melhor por aqui se faz, foi relativamente fácil, ainda que não simples, sinalizar ao mundo que valia a pena visitar Braga. A estratégia da promoção do concelho nas principais feiras internacionais, o cortejar dos representantes dos mais variados países em Portugal, demonstrando-lhes o que aparentemente só nós bracarenses sabíamos, e a mobilização dos agentes culturais para objetivos agregados de reinvenção da marca Braga deram resultados sólidos.
Não serei eu a hipervalorizar um prémio que tem o seu contexto e, seguramente, algumas limitações. Nem sequer relevo a disputa com grandes cidades europeias como Roma ou Paris, mas, ainda assim, há que dar nota de alguns factos que conferem indesmentível mérito ao “troféu” de Melhor Destino Turístico Europeu.
Note-se que, dos votos expressos, aqueles proveniente do espaço europeu corresponderam a 61% do total, sendo 39% os que tiveram origem noutras paragens. Isto, por si só, parece não dizer muito, mas reflete uma abrangência global, no sentido geográfico do termo, que nos deve fazer pensar sobre o alcance a que a nossa marca pode almejar num mundo que procura história, autenticidade e originalidade. Ao contrário do que por vezes se pensa, não são as praias paradisíacas os destinos que invariavelmente movem os turistas internacionais.
Claro que representam um grande volume nesse mercado, mas, salvo raras exceções, têm um apelo sazonal que não se coaduna com variações meteorológicas, nem com estadias mais curtas e orientadas para a descoberta de diferentes culturas.
À medida que se massificam as experiências turísticas em destinos habituais, como as grandes capitais, nota-se que há cada vez mais espaço para o turismo de nicho ou para propostas alternativas que representem um compromisso com a tal autenticidade de que falava.
É verdade que, por aqui, já se notam alguns sinais da massificação (Tuk-Tuks à cabeça) que critico, mas são ainda incipientes e não representam nenhuma capitulação irreversível em favor de pacotes de férias repetidos e anódinos.
Sublinho, ainda, dos dados conhecidos, que a taxa média de aumento de turismo nos destinos distinguidos como Best European Travel Destination ronda os 15%, pelo que, mesmo num ano particularmente exigente como está a ser 2021, podemos esperar eventuais ganhos que permitam compensar as quebras decorrentes do combate à COVID-19.
Em suma, o que se pode dizer é que o contexto de crise que vivemos não deve ofuscar o significado deste marco histórico para o concelho, tendo presente que, mais do que uma celebração do passado, ele servirá como motor de arranque da recuperação que todos queremos que chegue o mais rapidamente possível.
Só que, para isso, é fundamental que as iniciativas de apoio à economia, sobretudo no setor do turismo, cheguem o quanto antes aos empresários e entidades que deles precisam. Se a Câmara Municipal tem feito tudo o que está ao seu alcance para que assim seja, as instâncias centrais parecem presas na burocracia de sempre, impedindo que o tão necessitado oxigénio financeiro chegue, em tempo útil, a quem já só luta por respirar.
Braga é, definitivamente uma aposta segura, mas de nada valerá este prémio se, no final da crise que vivemos, já não houver ninguém que dele possa beneficiar e se não se puder antever um horizonte de esperança que faça desta a primeira de muitas e merecidas distinções.

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