Correio do Minho

Braga, terça-feira

Saúde Mental. Porque sim.

O Verão quente de 2017

Escreve quem sabe

2018-03-13 às 06h00

Analisa Candeias

1. O estado da saúde mental em Portugal é como o tempo: vai andando. Sabemos que estamos, pouco a pouco, a melhorar, porém, ainda há bastante trabalho a fazer. Os números que o Ministério da Saúde apresenta em 2017, relativamente a anos anteriores, são algo preocupantes, embora seja positivo o facto de existir uma maior unidade de registos relativa a pessoas com doença mental nos cuidados de saúde primários, e que o número de internamentos destas pessoas reduziu ligeiramente. No que diz respeito à terapêutica farmacológica, desde 2011 que a dose diária definida de fármacos utilizados no âmbito da saúde mental aumentou, com números inquietantes dos fármacos que são prescritos às crianças, em especial a vulgarmente conhecida ritalina. Também é facto que o álcool permanece como a substância psicoativa mais utilizada pela população, e a cannabis continua a ser experimentada, pelo menos uma vez na vida, pelo povo português. A mortalidade relacionada com a saúde mental é explicada, maioritariamente, pelo número de suicídios existentes no país, encontrando-se estes associados à presença de doença mental grave (como por exemplo a depressão major), muitas vezes tratável. Em geral, morrem mais pessoas por suicídio com idades superiores a 65 anos, se forem homens e com incidência no Alentejo - ou por complicações decorrentes da tentativa do mesmo. Sabemos igualmente que a depressão, as demências e a ansiedade são o grande espelho da patologia mental da população portuguesa e que, o encargo do Sistema Nacional de Saúde, perante os consumos farmacológicos e terapêuticos relativos à saúde mental, aumentou em 6,1%, de 2013 a 2016.


2. Neste momento, existem metas a alcançar perante os resultados que se conseguiram nos últimos anos e perante os cenários apresentados – que são apenas um exemplo do panorama geral. Podemos acrescentar que o Plano Nacional de Saúde Mental foi estendido até 2020, e que a missão preconizada neste Plano passa pelos seguintes eixos: i) assegurar o acesso equitativo a cuidados de qualidade a todas as pessoas com problemas de saúde mental do País, incluindo as que pertencem a grupos especialmente vulneráveis; ii) promover e proteger os direitos humanos das pessoas com problemas de saúde mental; iii) reduzir o impacto das perturbações mentais e contribuir para a promoção da saúde mental das populações; iv) promover a descentralização dos serviços de saúde mental, de modo a permitir a prestação de cuidados mais próximos das pessoas e a facilitar uma maior participação das comunidades, dos utentes e das suas famílias; v) promover a integração dos cuidados de saúde mental no sistema geral de saúde, tanto a nível dos cuidados primários, como dos hospitais gerais e dos cuidados continuados, de modo a facilitar o acesso e a diminuir a institucionalização. Em 2016 e 2017 assistimos à criação legislativa de documentos que facilitam o desenvolvimento da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados em Saúde Mental, legislação essa que permite - se cumprida e adequada às diferentes realidades da sociedade - parte do cumprimento dos eixos estabelecidos pela missão do Plano Nacional referido, e que possibilita ainda um apoio de saúde mais estruturado às pessoas com doença mental que se encontram a viver nas nossas comunidades.


3. Apresentados factos, resta-nos refletir e discutir. E colocar em prática. Porque isto da saúde mental tem muito que se lhe diga e ainda tem muito a ser acrescentado. Já foi alguma coisa realizada, os trilhos estão a começar a ser desbravados (penso que esta é a palavra mais adequada…) e as pessoas começam a apresentar maiores sinais de sensibilização. Porque trabalhar no âmbito da saúde mental implica uma envolvência e um compromisso dos profissionais que o fazem, em especial aqueles que trabalham em contacto direto com as pessoas. Já agora, um bem-haja a todos. Que bem o merecem. Talvez, por agora, seja necessário mesmo avançar – ir em frente, é exatamente isso. A legislação já saiu há algum tempo e, talvez, pouca coisa tenha ido realmente para diante. Os utentes merecem isso. A comunidade também, visto que carece de estruturas bem fundamentadas que possibilitem uma oferta de cuidados de saúde de qualidade e que promovam a ausência de doença, a autonomia e o bem-estar. E, neste foro de estruturas, deixo também um bem-haja às Ordens religiosas que se têm dedicado mais a estes assuntos, a Ordem Hospitaleira de S. João de Deus e a Congregação de Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, que, entre outras ações, desenvolvem e mantêm projetos exemplares de apoio e cuidados domiciliários, como é o caso do Consentido (Braga) e do CuiDando (Barcelos). Por isso, senhores governantes, decisores, gestores e afins, atenção a estes trilhos, que carecem da vossa atenção e do vosso empenho. Porque temos de avançar com a saúde mental. Só porque sim.

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