Correio do Minho

Braga,

S. Gens de Macarome...vila ou cidade?

Escrever e falar bem Português: Um item complicado

Conta o Leitor

2014-08-12 às 06h00

Escritor

Félix Dias Soares

Há mais de quatro mil anos, na proximidade do rio Cavado, em frente ao local onde este rio era atravessado pela estrada que ligava, Braga— Viana— Astorga, havia S. Gens de Macarome, denominada por, cidade, vila, ou povoado de Macarome. Era uma das povoações mais importantes desta região. Os Romanos ficaram mais de seis seculos nas nossas terras do Minho e da Galiza. S. Gens, também sofreu com essa ocupação, foi em plena ocupação Romana, que começou o Cristianismo, que eles combateram fazendo muitos Mártires. Por fim, os próprios Romanos se foram convertendo, permitindo a construção de lugares de Culto.
O povo fala de uma antiga cidade, a que chamavam cidade de Macarome, ou Macaroma dos Mouros. Como disse, é uma terra das mais antigas. Transformada em paróquia de S. Gens de Macarome, era aqui e na paróquia de Francelos que ficava a sede do Concelho de Prado, pois não existia ainda a paróquia de Santa Maria de Prado, que criada, uns seculos depois, passou a ser a Vila de Prado Santa Maria. Foi em S. Gens de Macarome, que há muitos seculos, se começou a fabricar a loiça de barro. Aí se teria estabelecido um grande número de oleiros, que aproveitando o barro tão abundante nesta localidade, desenvolveram esta atividade, comercializando a louça de barro em toda a Região, sendo muito conhecidas as panelas de barro, das louças do Prado. Deixando a agricultura para segundo plano, seria mais rentável trabalhar na loiça do que na agricultura. Só assim se compreende o abandono das terras e a importância desta terra no passado.
Lembro que nos anos 1129 havia duas povoações chamadas, Prado de cima, e Prado de baixo, ambas pertenciam a S. Gens, esta freguesia, tinha ligação direta com a ponte de Prado, que nesse tempo era Romana. A ponte foi construída à volta de um seculo antes de Cristo pelos Romanos, segundo uma inscrição antiga, era paga portagem, essa ponte foi destruída em 1510 por um temporal. A de hoje data do ano 1616, como se vê na inscrição que rodeia as armas reais existentes no miradouro, que diz: ESTA OBRA FES ANTONIO DE CASTRO DE A VILA DE VIANA…1616. É portanto, Filipina. A ponte teve obras em 1710, voltando a ter obras de conservação e consolidação em 2010 e é classificada monumento nacional desde 1910.
Voltando a S. Gens, transcrevo uma carta de D. Sancho II em que diz: Por graça de Deus Rei de Portugal e também de Braga: Saudação para a Igreja da Vila de S. Gens de Prado, apresento-vos Estevão Gonçalves, clérigo, rogando-vos que vos digneis coloca-lo dignamente nessa Igreja. A nomeação do Abade de S. Gens por D. Sancho II insere-se no mesmo plano de povoamento e de fidelidade ao rei de Portugal; Coimbra, a 13 de Maio de 1279. Sublinho que o Rei não chamou simplesmente Paroquia, mas Vila de S. Gens. Também neste documento vemos a importância desta terra, para que o Rei nomeie pessoalmente o Abade de S. Gens. O Juiz do julgado de Prado, Vicenzio Gonçalves é acompanhado pelo respetivo Abade Estevão Gonçalves, Prelado da Paroquia de S. Gens, sempre que necessário. O Tribunal pertencia à Paroquia de S. Gens, como comprovado nas inquirições de 1220, o Juiz sempre que saía do julgado, fazia-se acompanhar do Abade de S. Gens. Aqui vemos a importância desta terra e compreendemos a nomeação do Abade de S. Gens pelo próprio Rei. Um dos fatores que contribuía para a preponderância da Paroquia de S. Gens de Macarome era a proximidade da sede de Julgado de Prado, os seus habitantes, frequentavam esta Paroquia, visto não terem Paroquia própria. Mais tarde com a criação da freguesia de Prado desapareceu a freguesia de Francelos e a de S. Gens tornou-se muito menos importante, com a diminuição da freguesia, as casas ricas do julgado de Prado, passaram a fazer parte da nova freguesia.
D. João V, em 13 de Agosto de 1721, emitiu um decreto em que determina que todos os Párocos respondam a um questionário, para que através dessas respostas, se organizasse o Dicionário Geográfico de Portugal, também conhecidas por “ Memórias Paroquiais “a este questionário respondeu o Abade de Cabanelas, Bento de Araújo. O Pároco de S. Gens, Baltazar Veiga, atendendo que a sua paróquia estava na altura já anexa à freguesia de Cabanelas, não respondeu ao inquérito, assinando-o apenas e apresentado pelo Abade de Cabanelas. Vemos que em S. Gens havia 32 casas e apenas doze pessoas e em Cabanelas havia 288 entre adultos e menores. Aqui vemos a decadência da freguesia de S. Gens, acabando por ser extinta em 1855. A parte mais habitada de S. Gens e mais rica foi integrada na nova freguesia de Prado criada no Céculo catorze. Em 1258 a freguesia de S. Gens Macarome, pagava 70 libras, de imposto taxado pelos juízes executadores da cidade de Braga e nesta Diocese havia 700 Igrejas mais pobres. Segundo afirma o padre Avelino da Costa, no seu livro “ o Bispo D. Pedro”.
Nesta freguesia, nas inquirições de D. Afonso II, em 1247, havia as seguintes propriedades e seus donos: 6 quintas do Mosteiro de Tibães, 1 quinta do Mosteiro de Rendufe, 1 quinta do Mosteiro de Cervães, 2 quintas do Hospital e 2 quintas da Igreja de Cabanelas. Outras pertenciam à Nobreza. Estas quintas chamavam-se casais e tinham por média 10 hectares de terra boa. Baseando-nos nestes dados, grande parte da freguesia pertencia a Conventos e Abadias. Os Monges arrendavam as quintas, a varias famílias que entre si, completavam as rendas a pagar aos Conventos. Daqui se conclui que a população de S. Gens de Macarome dependeria quase totalmente dos Conventos e Abadias. Com a extinção dos conventos, estas terras acabaram em grande parte abandonadas, outras foram adquiridas por agricultores de Cabanelas. Aqui fica mais uma prova da decadência desta freguesia, que foi perdendo a sua influência e o seu prestígio ao longo dos anos.
A Igreja Matriz era a norte da Manobra, as pessoas eram enterradas à volta da Igreja e as mais distintas no seu interior. Ainda não havia cemitérios Civis, só em 1889 foi feito o de Cabanelas. A Igreja foi demolida e com a pedra construíram a Capela de S. Gens e o adro. Na Igreja Matriz de S. Gens, havia a Confraria das Almas, que era regida por estatutos, que datavam de 1626. Depois da extinção da freguesia, essa Confraria foi transladada para a freguesia de Prado, para a Capela do bom Sucesso, mudando-lhe o nome para Confraria das Almas e S. Pedro. Seria normal que a Confraria ficasse em Cabanelas, o que prova não ser pacífica a integração de S. Gens. Aqui fica de forma muito resumida a história da freguesia de S. Gens, extinta em 1855, mas anexa a Cabanelas há mais de quatro seculos. Durante todos estes anos, S. Gens guardou sempre o seu espirito de povo independente.

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