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S. ANITA

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

S. ANITA

Ideias

2019-04-05 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Escrevo em cima da canonização da virgem: S. Anita, orai por nós. Que intercessão pedir-lhe, que graças dela esperar? Em que alinhamento canónico invocar o seu sacro nome?
Reconheço que não estava preparado para esta elevação às cortes celestes, embora, bem vistas as coisas, nada deva estranhar: de facto, quão modelar e universal não era a pequena Anita! Nome de Deus, por que cegueiras desmereci a sua ubiquidade, o transparente toque de virtude em tudo quanto se aplicava, a sua inesgotável ponderação!
Redimo-me da surpresa. Como o primeiro, entre os seguidores menores, em júbilos envergo a opa cor de açafrão da confraria. Por intento, por agora, assim Centeno, venerando chanceler da ordem espiritual, me valide os votos de postulante e acolha no noviciado. Pura e genuína é a minha devoção: salve, S. Anita!
Perdoem-me a imodéstia, mas julgo ter sido tocado por uma centelha do fervor que abrasou o vidente Centeno, dos altares perto, quiçá, ele próprio. Como ele, sinto-me em comunhão com S. Anita, tanto que uma hagiografia da preclara me perpassa diante dos olhos em fascículos. Pasmo, é evidente, mas adiro de peito aberto.
Convosco partilho o que nos âmagos da alma me foi dado intuir. Sabei que, à semelhança de Bárbara de Nicomédia, a Santa, que cultuamos como lídima padroeira de mineiros, fundidores e artilheiros, e do vulgo amparo em caso de trovoadas, patrona celestial é a novel S. Anita do tesouro comum e dos orçamentos de estado, dos ministros que tamanho ónus carregam, por extensão.
Direito que se escreve por linhas tortas – pois não parecia, a douta sentença, ministerial, que o exemplo da infanta se desmerecia e apoucava? Tudo ao contrário. Posterguemos interpretações simplistas, sem recear. Justamente, avançar com obra pública, comprometer os recursos da Fazenda – parcos, como sabemos – é esforço nos antípodas da leveza de gestos da santificada, mas não nos esqueçamos que o ora ministro se enterneceu com as façanhas da agraciada em opúsculos escritos para edificação das novas gerações, textos sem grande teologia financeira, que inacessível seria, de resto, a crentes na muda da dentição.
Quão complexo não é o que simples se afigura! Quanta doméstica inteligência numa gincana entre estantes e prateleiras! Sim, é impossível antever a profundidade dos algoritmos da microeconomia de bazar, mas no grande se reproduz o pequeno, por conformidade fractal, geometria que o nobilitado entre os ministros europeus bem deve conhecer, a par das hediondas geometrias criativas trazidas a dia, segundo o que interessa ou não ao orador.
Penitências sobrevividas em retiros a pão e água, cilícios que Centeno quer para nunca mais. Que S. Anita lhe permita ultrapassar os soluços nojosos das cativações. Que S. Anita o auxilie na hora de lançar concursos de vez, como esses foguetes de cana que soltávamos por romaria, outrora, e cujo rasto seguíamos no céu primeiro, embebecidos com o génio do homem e a força elevatória da pólvora.
Que lhe conceda, S. Anita, o dom de vencer os repúdios de uma prova de conhecimentos, e teste psicológico por apêndice, gizada a bem da dignificação dos contínuos. Que o abone, a generosa do rigor, com as justas aritméticas, para que às empreitadas ocorram os mações, e para que os serviços prestados valham mais do que os deves e haveres de sebenta de tasqueiro.
Longe vão os tempos em que podia um homem contar com os dedos para cálculos em que hoje não há safa sem santinha. S. Anita nos valha e defenda, nos resguarde e ampare. Ámen. E ao Centeno também.

PS. Espera-se alusão ao Tio Patinhas.

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