Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Rua da Boavista sempre a mesma, sempre a Cónega

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Ideias

2019-04-14 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O domingo de Páscoa, que se celebrará daqui a uma semana, tem em Braga uma das suas mais peculiares tradições, com a visita Pascal aos habitantes da Rua da Boavista a realizar-se à segunda-feira.
É curioso verificarmos que a rua, com o topónimo de “Boavista”, não tem na realidade uma vista agradável, pois o seu aspeto sombrio tem tudo menos uma vista alegre.
Guilhermino Sotomaior, um bracarense nascido na rua da Cónega recorda, no jornal “Diário do Minho” (edição de 15 de abril de 1934), 50 anos depois do seu nascimento, os seus tempos de infância. E trata-se de uma recordação bem realista de uma época e de uma rua com caraterísticas bem particulares em Braga e que tem o seu início junto ao Patronato de Nossa Senhora da Torre.
“Rua velha, feia, declinosa e pouco assoalhada”, nas palavras de Guilhermino Sotomaior, tinha na sua parte inicial, desde o Pópulo à Carreira, prédios humildes, que eram habitados por pessoas sossegadas e empenhadas no seu trabalho diário e que se caraterizava pela realização de “«sendas de nó» para as sobrepelizes dos senhores cónegos, bordavam a oiro os veludos para as túnicas dos santos e os véus de ombros do Sr. Arcebispo”.
Nesta primeira parte da rua moravam famílias simples, mas remediadas e ainda alguns “fidalgos abastados; a família Russel, gente do povo: a «Maria Esteira», a «Rola», a «Ventaneira», os «Botijas»…”. Em finais do século XIX, tudo na cangosta era imundice pois ali eram depositavam entulhos e detritos.
Saído de Braga há décadas, sempre que cá vinha, Guilhermino Sotomaior não dispensava uma visita à sua “rua imutável” como gostava de a caraterizar. E nesses momentos questionava-se onde estariam já as pessoas que não via, desde há décadas: “Onde estais vós, ó almas simples que me estimáveis? Ó boa Maria cesteira, vizinhança! Ó virtuosa tia «Joana Adeleira», senhora dum lar que era um templo!”. E onde estaria a “velha Agueda, rabugenta e misantropa, que a garotada irreverente enchia de arrelias!”. E onde estaria a “Sr.ª «Ventaneira», tantas vezes assaltada pelo rapazio da escola do P.e Caetano, que espiava o mínimo descuido da boa velhota para lhe surripiar uma maçã ou um figo! E os companheiros de infância: o Juca, os Sás, o Alvim… que é feito deles?”.
A parte seguinte da rua da Boavista caraterizava-se por uma “cangosta que ligava a Cónega ao solar dos fidalgos das «Hortas», o declive da rua é rápido, fatigante, desde a casa do nobre João Maria Machado até ao Chafariz de S. Tiago, onde todos os anos se realizava uma festa a 25 de Julho, em honra do Santo Apostolo”. Nessa ocasião destacavam-se, como mordomas, as “senhoras da família do «Anãosinho, da Cónega»”.
Esta festa era precedida de uma cerimónia bem peculiar. Isto porque desde o dia 16 até ao dia 24 de julho, o marido da sr.ª «Ventaneira» descia “a rua tamborilando numa caixa de rufo ao lado dum colega. De seguida, os habitantes da rua aproximavam-se do chafariz, ajoelhavam-se e cantavam em coro vários “padre-nossos”.
Mas o dia da festa era de facto o grande momento para os habitantes da rua, também porque a “Romeira de veludo preto com viveiras bordadas a prata pelas do «Anãosinho», eram de rara beleza! A festa era complementada com vários quadros bíblicos a S. Tiago, uma das mais importantes festas realizadas na rua da Cónega, ou da Boavista.
Guilhermino Sotomaior recorda que num ano, aquando da realização da Festa de S. Tiago, abateu-se sobre Braga e sobre a rua da Cónega “a mais pavorosa das tempestades de que há memória nos seus anais. O vento, com uma velocidade de furacão, destroçou árvores, levou pelo ar beirais e claraboias, causou pânico nas igrejas”, ouvindo-se gritos por muitos lados, vindos de devotas assustadas que pediam “Valei-nos, Senhor, que é chegado o fim do mundo!”. Os relâmpagos, as fortes descargas eléctricas e uma chuva torrencial diluviana, transformou a Cónega “num rio impetuoso de águas barrentas”. Nessa ocasião, os santos pescadores, S Pedro claviculário, o Apóstolo das Espanhas e até os próprios defuntos mouros, tudo rolou no enxurro, pela rua abaixo, indo só parar longe, na estrada de Frossos”, sem que alguém tivesse a coragem de se intrometer neste rio de águas barrentas e revoltas. Nesse pânico, só escapou S. Tiago, “empoleirado no Chafariz, de olhos muito abertos a contemplar aquele pavor”.
Após a festa em honra de S. Tiago, o divertimento que mais marcava a rua da Cónega realizava-se a 3 de maio, em honra de Santa Bela Cruz que era bem simples, mas assustador, porque existia um “nicho com um crucifixo, à entrada da «Carreira», que as moças da Cónega iluminavam a azeite todas as noites”. Mas perante a “escuridão absoluta da cangosta aquela luzinha débil era ainda mais pavorosa que a sombra!”.
Na rua da Cónega cantava-se o “Rosário” e festejava-se o “velho S. Tiago do chafariz”. Realizavam-se imponentes festas a S. João e ainda a procissão de S. Lourenço, também conhecida pela procissão das remelas, por ser uma procissão matinal. Nessa festa, o Santo saía da capela de S. Sebastião das Carvalheiras num belo andor e dava o “seu passeio matinal, sorridente e feliz”.
Muitas tradições acabaram em Braga, mas há algumas que se mantêm. Uma delas é o Compasso, à segunda-feira, na rua da Boavista, que é sempre a mesma, sempre a Cónega.

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