Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Rosabella

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2018-07-12 às 06h00

Escritor

Autor: António Santos da Silva

Rosabella entrou-lhe no coração pela única porta que ele deixara desaferrolhada. E encontrou-o repousado na insegura certeza dos que desistem do amor. E assim o descobria todas as noites em que se anunciava e ele fingia não a ouvir, mantendo, contudo, a porta libertada como ela a encontrara nesse primeiro final de tarde de todos os finais que se lhe seguiram.
Rosabella tinha aquele toque indefinível que caracteriza mulheres únicas. Uma espécie de “je ne sais quoi” que não se evidencia nos primeiros contactos mas que, invariavelmente, acaba por seduzir todos os que têm a felicidade de merecer a sua atenção. O sorriso marcava-lhe o rosto e fazia sobressair a postura serena com que por vezes a descobria absorta, como que voando bem longe desse espaço fechado onde regularmente a encontrava. Uma vez por outra, ele, sem o reconhecer, distraía-se das suas obrigações, olhava-a com mais cuidado e, quando os seus olhares se cruzavam, recebia um sorriso breve mas que muito o perturbava. E ele, resguardado nas suas incertezas, desacomodava-se e procurava, em desajeitado disfarce, introduzir um novo motivo de distração e mentia-se para não ver. Contudo, amiudadamente surpreendia-se a espiá-la como que hipnotizado pelos gestos suaves com que ela se abandonava a acariciar os negros cabelos lisos, desenhando com os dedos imaginários caracóis onde ele, sem se autorizar, descobria-se tentadoramente desejando ser aprisionado. E então ele olhava-a sem se reconhecer… Mas ainda não se desassossegava, tão seguro se sentia por ter desistido de amar.
Rosabella então ainda não existia. Nesses finais de tarde ela era tão-somente uma mulher bonita, um corpo de tentação, uma presença que oscilava entre o mais absoluto recato e ocasionais explosões de um humor fino, subtil, mas que a ninguém deixava indiferente. Nesse tempo, Rosabella era uma estrela da tarde, ainda ofuscada pelo brilho do Sol, mas que haveria de luzir intensamente quando ele descobrisse que pela única porta que deixara desaferrolhada entrara aquela luz única que confundiria o negrume com que interiormente pintara o coração.
E ele, inconscientemente, continuava a achar-se seguro, resguardado pela falsa máscara que publicamente exibia, certificando a sua insegurança pelos anos que dizia ter vivido, exibindo o grisalho dos seus cabelos como salvo-conduto absoluto para as perdições do amor. E humorava com a sua pública fidelidade conjugal, exibindo uma desnecessária e insegura segurança, recurso néscio da intranquilidade.
Rosabella era então sentida como mais uma naquele flanco para onde quase sempre dirigia o seu olhar. Que ele julgava mecânico, mas que se fizera já por demais notado. E então ele usava o argumento da autoridade para dissertar sobre putativas predisposições genéticas que, inconscientemente, o levavam a privilegiar uma das alas daquele espaço que afirmava igual. Todavia, ele, sem o saber, mentia-lhes. E mentia-se!
Hoje ele sabe que eram os passos dela no seu coração desaferrolhado que o faziam voltar-se à esquerda, procurando certificar-se se era mesmo ela que já então lhe agitava as horas.
Hoje ele abandona-se nas memórias e revive-a de novo sentada naquele mesmo lugar onde ao longo daquelas noites ela penetrou no seu coração. Pela única porta que ele inconscientemente deixara desaferrolhada. E continua a vê-la sentada ao lado daquele que ele julgava ter ganho as suas mais ternas atenções. E então incomodava-se pelos cochichos que por vezes surpreendia, por risinhos abafados que o feriam. E, estranhamente, infeliciava-se pelos seus cabelos grisalhos que a vida tinha inabilitado para concorrer pela atenção daquela mulher jovem que ele ainda não descobrira que entrara no seu coração. Pela única porta que ele desaferrolhara.
Rosabella agora já é! Aquela que ele desconfiava ter entrado pela única porta desaferrolhada do seu coração.
E ele agora sofre por já não a sentir a passear pelo seu coração.
Rosabella é agora a obsessão de todas as suas horas.
E ele agora se desassossega.
Rosabella é agora a única mulher a quem verdadeiramente ama.
E ele agora volta a ser quem é.
Rosabella é agora a única a quem fala.
E ele agora emudece-se para os dias quando o céu se fecha sobre si.
Rosabella é agora a senhora única do seu coração que ela descobriu aberto pela única porta que ele deixara desaferrolhada.
E ele hesita-se entre o imperdoável esquecimento ou a ventura do desleixo.
Rosabella é!
E ele agora não é. E ele agora não vive. E ele agora já não se entardece nos dias em que o seu olhar se perdia no lado esquerdo daquelas quatro paredes onde de novo se descobriu, quando a noite o agarrava e ele queria ser razão.
Rosabella é agora um rosto que ele acariciou, uns lábios que ele desajeitadamente beijou sem escolher, um corpo que ele não teve.
E ele agora sabe que Rosabella é a única certeza que ele tem de um futuro em que arderão sonhos em troca de nada.
Rosabella foi a mulher que tão perto teve, mas que desafortunadamente não soube ter. E que nunca deixará de amar!
E ele agora reconhece-se perto do precipício onde se fará saltar. Nesse limite onde sempre foi um outro qualquer.
Rosabella é agora a alegria feita de ilusão, a força estranha em que ele sentiu fazer-se ressuscitar.
E ele agora ama como se enganava de não saber amar.
Rosabella…
E ele agora de novo sofre-se por não querer lutar, rodar um filme real, onde ele fosse o herói que destruiria todo o mal que a faz sofrer.
Rosabella…
Rosabella…
Rosabella…
E ele assim se deixou abandonado nesse final de tarde quando a luz se esvai.
Fugindo da própria vida...

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