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Braga, terça-feira

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Roma portuguesa

Vamos mesmo continuar a cometer os mesmos erros?

Roma portuguesa

Conta o Leitor

2020-07-10 às 06h00

Escritor Escritor

Autor: Ricardo Moura

O Verão de 1986 não foi azul. O céu rasgou-me a alma. Vi o meu amado avô subir ao olimpo. Caricaturei a dor com as memórias que ainda hoje pintam os meus dias de infância. Foi neste quadro que parti do Barroso e me deixei abraçar por Braga.

A porta do carro abriu-se e com ela a ceifa do Minho. O calor e o sotaque eram diferentes. Cheguei com a pele escura. Tinha deixado a sacha do milho, a malhada e a carrada do centeio feitas. Por lá ficou o pó e o cheiro da terra. Os aromas dos lameiros. O refresco da água das fontes. A procissão da vezeira. A badola dos carros do mato. O calcar do feno dos rapazes. O mata-bicho das manhãs. A escola sem livros debaixo do braço. O futebol com balizas de pedra. A casa do Balado. O primeiro beijo. Tinha o Barroso dentro de mim.

Partilhar esta liberdade foi o desafio maior. Maximinos não se calava à noite. O vaivém de carros fazia da Rua do Caires o grito do lobo. O sobressalto do Larouco.
O tempo era largo. As horas congelavam. Medrava os dias, em parte, com o eco fresco do Mundial do México. Foi essa ressonância que me levou a vencer o medo e galgar, sempre a pé, até ao 1.o de Maio. Queria ver de perto os jogadores do Braga. Porém, o que logo me pasmou foi a dimensão do estádio. Uma muralha granítica que me enfeitiçou. Bela. Imponente. A porta estava sempre aberta pelas cinco da tarde.

Entrava e observava a chegada, a conta gotas, dos jogadores ao relvado. Um séquito que tinha António Borges, o capitão da bandeira transmontana de futebol que trouxe as malas de Chaves. Com ele, nomes que tinha visto nos cromos e que julgava inacessíveis: Saucedo, Jacques, Nelito, Spencer, Barradas, Serra, Jorge Gomes...todos liderados por Humberto Coelho, nome que povoava inúmeras cadernetas.

A semana vivi-a nesse cortejo. O fim de semana tinha destino: Barroso. Pelo meio, chegaram os primeiros toques de bola. As tardes passaram a ter menos silêncio. As noites, abafadas, propagavam o suor, no fundo do prédio, com os primeiros jogos por entre as equipas que ganhavam rotina.

O luar desse Verão não o esqueço. Quando a bola recolhia, dava por mim a zurzir conversa comigo próprio. No quarto reunia os sonhos dentro de mim. Procurava a janela. Lá fora, por entre o carrocel de viaturas, deixava conduzir a mente pelo vento, o melhor veículo como escreveu Ruy Belo: “só ele traz o perfume das flores, só ele traz a música que jaz à beira-mar em agosto”.

Este odor rabiscou o primeiro desenho que fiz de Braga. Um chão que passou a ser dos meus passos. Das minhas angústias e devaneios. Dos meus deslumbres. Foi aqui que cosi a minha mais amarga e doce adolescência.

Assim entrei na escola D. Maria II. Uma casa branca estendida. Um furacão que exigia alicerces que não tinha. Combati as vozes que doem com silencio empedernido. Valeu-me, tantas vezes, o olhar que baliza a insuportável tirania de quem não tem talento. As minhas contas não eram de multiplicar. Preferia, como ainda hoje prefiro, a palavra por domar, a frase da estrada sem destino, o texto que salpica o olhar.

Foi por este trilho que, anos depois, venci a mó da bílis. Um triunfo em terra benzida pela fé. Aconteceu porque deixei o fado semear a minha sina. Hoje olho para a pauta e segrego o coro de vozes que desafinam. Oxalá o telhado que conservo mantenha a acústica para que o som continue a ser minimamente audível.


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