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Rolha na boca

Escreve quem sabe

2021-02-26 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Leio que Bolsonaro tem solução para as fake news: acabar com os jornais. Com a camisola da seleção portuguesa vestida, sem máscara e a curtir o Carnaval numa praia em São Francisco do Sul, estado de Santa Catarina, o Presidente do Brasil disse esta alarvidade depois do Facebook o ter impedido de receber imagens de conteúdo político, decisão que catalogou como «censura draconiana».
Este capitão reformado que carrega o nome Messias, deputado federal ao longo de sete mandatos (1991 a 2018), falava em direto na página de Instagram do filho Eduardo, também ele deputado desta nação com mais de 200 milhões de habitantes. O que Bolsonaro não diz é que foi a imprensa que hoje critica, embalsamada nas redes sociais, que o colocou no Planalto. Foi ela que fez de guindaste para o poder depois de lhe dar visibilidade ao votar o impeachment de Dilma Rousseff – por uma suposta irregularidade na execução orçamental, transformada pela oposição em crime constitucional – em homenagem ao coronel da polícia política que na ditadura militar a havia torturado.

O tempo de máscara que vivemos é chão fértil para pulverizar a cobardia. Não estranha que a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) tenha denunciado o aumento da repressão contra os jornalistas em vários países do Mundo, com a aprovação de leis que limitam o direito à liberdade de informação. No topo, sem espanto, está a China e o Irão. Em matéria de liderança, o mais robusto cartão vermelho vai para o já deposto Trump e, claro está, para o inefável Bolsonaro, líder de um país cuja imprensa sofreu em 2020 mais de 400 ataques, incluindo dois assassinatos, número em dobro ao de 2019 (208) e o maior das últimas três décadas, garantia dada pela Federação Nacional dos Jornalistas do Brasil, órgão sindical que atribuiu esse aumento da violência à ascensão do “bolsonarismo”.

Outra questão é enfrentar as fake news como deve ser, sem desviar o olhar do drama que mina a informação. A revista Science acaba de publicar o maior estudo já realizado sobre a disseminação de notícias falsas na Internet, feito por cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. A conclusão é devastadora: as falsas notícias espalham-se 70% mais rápido que as verdadeiras. Para além da rapidez, ganham corpo no Mundo virtual com mais profundeza e abrangência (se o conteúdo for político, alastra três vezes mais). Para termos uma ideia, fica esta nota: cada post verdadeiro atinge, em média, 1.000 pessoas. O falso pode chegar a 100 mil.
O grito do silêncio é de tal ordem que o próprio líder da Igreja católica apelou a um «jornalismo valente» que combata a praga do noticiário de engano. Na mensagem que já deixou na 55a Jornada Mundial das Comunicações Sociais, a realizar em maio próximo, o Papa Francisco referiu que a imprensa atual oferece espaço a uma «informação reconfecionada», menos capaz de intercetar «a verdade das coisas ou a vida concreta das pessoas». O pontífice foi mais longe ao pedir à classe jornalística para sair do sofá, largar o virtual e ir para as ruas para «desgastar as solas dos sapatos», numa clara alusão ao jornalista espanhol Manuel Lozano Garrido, desaparecido em 1971 e beatificado em 2010.

Este jornalismo de fotocópia envergonha a memória daqueles que não viraram a cara aos canhões do poder. O sair à rua, o «vem e verás», é a melhor arma para derrotar a inércia, o laxismo, o fedor de quem mantém o poder pela força e pela manipulação.
Nunca a liberdade de imprensa poderá viver em requiem. Não há máscara que tape a voz da pergunta. O olhar sem pestanejar. O braço que levanta o microfone, o flash da câmara ou o brilho da imagem por mais escuro que seja o chão que pise. Hoje o quarto poder é mais do que nunca uma janela de esperança nestes dias sem toque. Haja estrada para andar e uma garrafa sem rolha para brindar.

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