Correio do Minho

Braga,

Riscos e prudência na hora da saída

Consumidores mais habilitados a comparar comissões bancárias a partir de 1 de outubro

Ideias

2014-03-14 às 06h00

Margarida Proença

Como é bem sabido por todos, nos últimos anos quatro países na zona Euro foram forçados a aceitar programas de assistência financeira e de ajustamento económico: a Grécia, a Irlanda e Portugal em 2010, e Chipre em 2013. No caso de Portugal, o programa de ajustamento económico, aprovado em 17 de maio de 2011 pelo Ecofin, envolvia um financiamento externo na ordem dos 78 mil milhões de euros (cerca de 94% dos quais já entregues) e tinha como duração três anos. Era também a duração prevista no caso dos outros países; entretanto a Grécia foi abrangida por um segundo resgate que terminará em dezembro deste ano, e a Irlanda teve uma chamada “saída limpa”, ou seja sem recurso a um programa cautelar, porque dispunha de uma almofada financeira significativa e por outro lado é tida como uma economia competitiva e tudo isso atrai investidores nos mercados internacionais.
A saída destes programas de assistência financeira não é de esperar que seja fácil; em princípio, um país será confrontado com a necessidade de escolher entre um novo programa, uma saída limpa ou aceitar um programa cautelar, que basicamente remete para uma espécie de acompanhamento “de prevenção”. Colocando de parte a primeira hipótese, a escolha é determinada pela opção política sujeita às restrições colocadas pelas condições económicas e financeiras. A questão da sustentabilidade da dívida é importante, como o é igualmente a competitividade internacional e a produtividade do país, bem como a prudência com que estas questões devem ser tratadas.
Uma saída limpa não significa a resolução - por golpe de mágica - dos problemas, e a melhoria imediata das condições de vida. É certo que as notícias que vamos recebendo são positivas. O PIB em 2013 diminuiu 1,4%, o que foi menos do que se antecipava, e menos certamente que em 2012 , quando contraiu 3,2%. Por outro lado, no último trimestre de 2014 já aumentou cerca de 1,7% , em parte devido às recuperação do consumo privado, mas também ao crescimento das exportações. Descolou-se portanto - desde o 2.º trimestre de 2013 que o PIB cresce em termos reais. O emprego, ainda que a medo, começou também a dar algumas indicações positivas. Nessa medida a capacidade para gerar excedentes primários relativamente elevados, de forma consistente, parece começar a ser real.
Mas os riscos estão por todo o lado. A economia é um mecanismo muito complexo, onde tudo depende de tudo, e o puxar do lençol pode deixar os pés de fora. As relações financeiras com os credores vão durar por longos anos; a maturidade do empréstimo negociado no âmbito do programa de assistência anda pelos 20 anos. O recurso ao crédito que vamos continuar a ter de pedir e o preço que vamos ter de pagar por ele vão depender da confiança que o país incutir aos investidores, sejam eles nacionais ou não (a Espanha, por exemplo, paga juros muito mais baixos que Portugal). Mas no mundo global em que vivemos, não depende só do que se passar no país - os juros que no futuro Portugal terá de pagar dependem também do que se passar na zona Euro, do que se passar na Europa e não só, e a recuperação económica do país depende em larga medida dos desenvolvimentos que se registarem por lá. O euro tem que ser reformulado ou revigorado, a união bancária tem que ser criada de forma séria, por aí fora.
Por isso tudo me parece - e é apenas uma opinião, entre muitas outras porventura mais informadas - que deve haver muita prudência neste tem-te-que-não cais em que estamos metidos. A vulnerabilidade à deterioração dos sentimentos, dos medos potenciais de que investe é real, e deve merecer um cuidado grande por parte dos políticos; e mesmo que soluções como a reestruturação da dívida possam parecer atraentes significam que vamos passar a mensagem que não vamos cumprir os compromissos que aceitamos. A economia portuguesa tem fragilidades estruturais que a tornam muito vulnerável a choques, como acabámos de confirmar nestes últimos anos se acaso tivéssemos qualquer dúvida, uma competitividade e produtividade inferior à média da zona euro e dificuldade atual na atração do investimento externo.
E isso numa altura em que a incerteza é tão grande, assusta-me deveras. Não assinaria o manifesto recentemente divulgado.

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