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Ricardo - o livre-pensador de Nogueiró

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Ideias

2010-10-25 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Quando falta exactamente uma semana para a celebração de um dos dias mais importantes para os Católicos, o “Dia de Todos os Santos”, vou recordar um episódio que ocorreu há 122 anos da freguesia de Nogueiró, concelho de Braga.

Foi em Maio de 1888, exactamente dez anos após a construção do cemitério público de Braga, que o enterro de um habitante desta freguesia provocou um enorme alvoroço, que culminou com manifestações, agressões e intervenção policial.

O episódio conta-se em poucas palavras: Ricardo, um contra-mestre da fábrica de chapéus de Nogueiró, tinha umas ideias muito próprias sobre a religião. Vangloriava-se, junto dos seus colegas e amigos, pelas suas ideias opostas à religião Católica.

As suas ideias eram de uma firmeza absolutamente intransigente. Desde sensivelmente o ano em que foi inaugurado o Cemitério de Braga (1878) que Ricardo não se confessava nem sequer entrava numa igreja. Já lá iam dez anos.

Nos últimos momentos da sua vida, Ricardo, plenamente consciente que a morte se aproximava, manteve-se firme e recusou receber os últimos sacramentos da Igreja Católica, que lhe tinham sido oferecidos por um carismático padre de Braga.

Quando os seus familiares, colegas e amigos preparavam a realização do funeral de Ricardo, as autoridades religiosas proibiram que o seu cadáver fosse enterrado no cemitério, ou seja, em terreno sagrado.

Persistentes, os amigos de Ricardo tentaram efectuar o seu enterro no cemitério utilizando várias formas. Numa delas, tentaram dirigir-se para o cemitério, acompanhados por uma banda de música, chamando desta forma a atenção das pessoas. No entanto, nenhuma banda de música se prontificou a tocar nesta… procissão!

Nunca desistindo dos seus intentos, os operários da fábrica de chapéus de Nogueiró dirigiram-se, então, para a igreja de S. Victor-o-Velho, apoderaram-se da Cruz da Irmandade e da Opas, colocaram-nas aos ombros, e prepararam-se para desfilar com o cadáver até ao cemitério. No entanto, nenhum padre os acompanhou nestes seus intentos, pelo que os seus objectivos ficaram, mais uma vez, sem surtir os efeitos desejados.

O cortejo fúnebre dirigiu-se então para o cemitério, mas sem nenhum pároco a acompanhar. Mal aí entraram, insistiram junto do respectivo funcionário, o sr. Almeida, para que os deixassem entrar pela porta principal e não por uma lateral destinada aos que morriam fora dos mandamentos de Deus.

O pobre do sr. Almeida, assustado, apesar de estar acompanhado pelos agentes da autoridade, lá os deixou entrar. Uma vez dentro do Cemitério, os amigos de Ricardo tentaram à força enterrar o cadáver no local destinado aos Católicos. Mas, mais uma vez, em vão!

A recusa em sepultar Ricardo no cemitério originou uma enorme confusão no interior do cemitério, verificando-se cenas de grande pancadaria entre os populares (que defendiam que Ricardo fosse enterrado no local destinado aos católicos) e os populares (que defendiam o contrário).

Os próprios operários, acompanhantes de Ricardo, espancaram-se mutuamente, tendo vários deles ficado feridos. Nesse momento, também um polícia ficou ferido com gravidade.
Depois de tanta agitação, e de algumas prisões, o cadáver acabou por ser depositado no local destinado aos que não podem receber uma sepultura Católica.

Um dos operários, que havia sido preso pela polícia, acabou por fugir, ajudado pelos seus colegas de profissão.
A sociedade da época, indignada com este episódio, insurgiu-se contra os donos das fábricas, nomeadamente aqueles que permitiam que dentro das suas portas existissem operários que não obedeciam aos princípios católicos e democráticos. E exemplificavam com o caso dos donos da fábrica de chapéus de Nogueiró, que permitiam que na sua fábrica existissem operários “socialistas e livres-pensadores”, que não se preocupavam com os valores cristãos!
Nota: Ded. VA

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