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Revisitando um livro “Mário e o Mágico”

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Revisitando um livro “Mário e o Mágico”

Ideias

2022-09-29 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Em abril de 2020, em plena pandemia, fiz uma pequena sugestão de leitura na minha newsletter mensal na qual vou dando conta das atividades que desenvolvo no contexto da minha missão ao Parlamento Europeu. É essa pequena sugestão de leitura que hoje, ante os resultados das eleições legislativas em Itália, não resisto a recuperar.

Trata-se da célebre novela de Thomas Mann, Nobel da Literatura em 1929, intitulada “Mário e o Mágico”. Tal como então escrevi, a novela breve, apresenta-nos de modo magistral uma metáfora corrosiva de uma sociedade europeia que gradualmente caminhava para a xenofobia, para a vaidade nacionalista e para o delírio das ditaduras. Voilá.
Um homem alemão, em conjunto com os seus dois filhos e a sua esposa, vai para o que imaginaria e desejaria fossem umas férias rotineiras, mas ainda assim prazenteiras, numa instância balnear italiana. Contudo, o que encontra é um ambiente de crescente tensão que lhe sussurra ‘não és bem-vindo’. Um ambiente que se pressente hostil, ainda que ninguém chegue a verbalizar em voz alta esse sentimento. São apenas pequenos gestos, uma ou outra palavra, um esgar, um olhar, situações de que a família é alvo no início das suas férias, ou que o pai observa em seu redor procurando não as valorizar. Tudo aparentemente inofensivo, tudo aparentemente justificado por outras razões, tudo dito e feito de tal modo que impossibilita ao homem qualquer palavra ou gesto defensivo contra a discriminação de que ele e a sua família são alvo. 
Entretanto, um mágico e o seu espetáculo chegam à vila balnear. O que poderá haver de mais inofensivo do que um cenário que convida a apenas um pouco de inocente diversão, alegre convívio, e nada mais? O mágico, porém, é tudo menos um simples “entertainer”. É antes um estranho e sádico hipnotizador, capaz de manipular a seu bel-prazer a mente dos espectadores incautos. Anedótico, ridículo nos seus modos excessivamente teatrais, feio, repulsivo até, o Mágico é ao mesmo tempo inexplicavelmente cativante. Os espectadores, que se julgam imunes às suas patranhas, abandonados ao riso, descontraídos como a presa que não se apercebe da chegada do predador, estão afinal também eles enfeitiçados muito embora continuem a afirmar o contrário. Como sair dessa hipnose grotesca quando nem dela se tem consciência e se pensa estar desperto? 
A resposta surge então na forma da íntima e profunda humilhação sentida por um pobre manipulado, Mário, que o mágico retira da hipnose apenas para o submeter à dor de se ver alvo da chacota coletiva. E é dessa dor, dessa humilhação, desse despertar sobre aquilo que realmente se está a passar, que nasce o ato de revolta (que aqui não desvendo para não ser uma ‘spoiler’ como agora se diz, caso haja leitores que ainda não conheçam a obra) - o ato derradeiro que pode afinal libertar a multidão do engano.
Revisitar esta novela, escrita em 1929, surge-me hoje como um exercício quase incontornável ante tudo o que vejo acontecer numa Europa tão entorpecida pela urgência do imediato que tem dificuldade em pensar; numa Europa inebriada pelos olhos e gestos dos prestidigitadores de serviço: Meloni, Salvini, Orban, Von Storch, Le Penn, Abascal... Numa Europa que assiste à ascensão da racionalidade política da extrema-direita (homofóbica, xenófoba, racista, paternalista, autoritária) mas que continua a achar que a palavra fascismo é coisa do passado. Os prestidigitadores, esses, agradecem.

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