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Revisão de contas

O maior desafio dos 50 anos de Democracia

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Ideias

2024-03-03 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Em terreno fácil avançamos de olhos fechados. Convencemo-nos até que progredimos, ainda que rodemos ininterruptamente em torno do mesmo, porque presumir progresso é da natureza dos nossos espíritos e musculatura, assim se reconheçam em acç?o. Que sucedeu à Europa, porém, nos últimos oitenta anos?
Eu sei que apelo a um exercício inglório, senão impossível: como poderá alguém sustentar que estejamos pior do que nos finais dos anos quarenta? Para mais não invocar, como poderemos nós passar uma esponja sobre marcos civilizacionais, como a derrota de dois totalitaris- mos, como o desenho prático de uma cooperação que abrange todos os domínios da vida social e política? Integraç?o e complementaridade que alguém aspirou do Atlântico aos Urais ou, para melhor dizer, do Cabo da Roca ao Cabo Dejnyev, da Estremadura à Tchukotka.

Cumplicidades que um aleijão ideológico comprometia, que um imperialismo opressor e inumano deitava a perder. Que Hércules nos seria escudo e campeão? Jogo infantil: em que mão está o caramelo, o brinde, a prenda? Escolha sem remate, sem um-dó-li-tá: uns que ficam de um lado, outros que ficam do outro; uns sob a pata do urso, outros sob as garras do pigargo americano, ambos figuras de topo de cadeia alimentar.
Um que cede, por mais não poder, porque os lineares despidos e monótonos de supermercado sejam um ricto gelado, sejam uma angústia que a seu tempo turve o sonho de qualquer proletário. Piada com vários contornos: as três glórias do socialismo – a educação, o desporto, a saúde; as três misérias – o pequeno-almoço, o almoço e o jantar.
Um que cede, e outro que de posição de força entra como cão por vinha vindimada, pisando despudoradamente orgulhos. De um ponto de vista estritamente europeu, que nos impedia a nós, aí pela viragem do milénio, de intentarmos essa aproximação gorada? Em que é que as manias de russos seriam mais difíceis de absorver que as prepotências de alemães, que as presunções de franceses, que os enfatuamentos de britânicos, enfim, que qualquer marcador etnocêntrico?

A coragem para uma pergunta: a quem é que uma Europa convergente e solidária faria sombra? Não foram as ambições imperialistas que presidiram ao afundamento da Europa nas trincheiras da primeira guerra mundial? Não emergiu a América como grande potência na ressaca do colapso europeu? Não se cimentou o enfeudamento europeu com o rescaldo da segunda conflagração do passado século? Vencidas fossem essas questiúnculas, diante de quem nos apresentaríamos mais de chapéu na m?o?
Vassalagens que uns mantêm, vassalagens que outros trocaram. Terras férteis, em idos da república socialista soviética da ucrânia, que agora integram portfolios de multinacionais agroalimentares, a que não é estranho o bento capital ame-~ricano. Conquista que uma América pró-Biden defende com unhas e dentes, mas que uma América pró-Trump pos- sa deixar cair, porque outro se-ja o seu negócio, ou não aspi- re o homem a dois belíssimos hotéis pelas bandas de Moscovo e São Petersburgo. Resu-mir-se-á a isto a roda da política?

Fizemo-nos reféns de um salvador. Podemos sempre dizer que nos foi calhando melhor do que àqueles que por quatro décadas ficaram para lá da cortina de ferro. Podemos sempre dizer, sobretudo, que a nossa democracia é mais salutar, mas bom era que quiséssemos parar para vermos onde vamos pondo os pés.
A realidade admite mais do que um discurso e é inquestionavelmente complicado abandonarmos uma narrativa que nos salta aos lábios por autorreprodução. Chama-se a isso reflexo condicionado. Eu, ainda tenho uns livritos do Pavlov, e outros do Setchenov: salivo, mas sei porquê.

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