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Retalhos da vida de um confinado

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Retalhos da vida de um confinado

Ideias

2020-05-29 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Há dias vi-me confrontado com uma longa entrevista na televisão. Intitulava-se o entrevistado de constitucionalista e discursava longamente sobre o Estado de emergência e Estado de calamidade. E, perguntaram-me, o que é um constitucionalista.
Num estado de pandemia, acho desajustado chamar um profissional destes a discursar na televisão. Só atrapalha. Embora licenciado em Direito e doutorado em Ciência Política não sabia responder muito bem a esta pergunta pertinente: O que é um constitucionalista? O homem assumia-se como sacerdote do Direito Natural. Ora, eu sempre considerei as constituições como contratos entre cidadãos, pelos quais estabelece a organização política e a defesa dos seus direitos. De outro modo, seria o caos e os homens devorar-se-iam uns aos outros, como há muito tempo foi dito por Hobbes no Leviatã. E, quando as circunstâncias mudam e se alteram os interesses dos cidadãos, mudam-se as constituições. Não há necessidade de hermeneutas e exegetas, já que a Constituição não é um livro sagrado que precise de intérpretes.

Caiu-me nas mãos, por herança, um livro intitulado A Comédia Política, de Joaquim Leitão, publicado em 1910. Contém entrevistas de homens de Estado das últimas semanas da Monarquia e dos primeiros dias da República. Segundo o autor, não deixa de ser interessante emparelhar no mesmo volume aos políticos que desdenhavam da ameaça da revolução e que pensavam que a mudança de regime era um terror noturno que só povoava espíritos de criança, e políticos republicanos, falando da revolução triunfante. E, termina o autor, dizendo que a comédia continua em cena, com o mesmo cenário, mudando apenas de intérpretes.
Entre os entrevistados conta-se o Conselheiro Marnoco de Sousa, Conselheiro Júlio Vilhena, Henrique Paiva Couceiro e o comandante da Marinha. Este afirmava, de forma categórica, semanas antes do 5 de Outubro de 1910, que a marinha era monárquica e não republicana. Viu-se!... Eram um bando de emproados que desconheciam o mundo onde viviam e que passavam o tempo entre o Terreiro do Paço e a Ajuda. Também os vultos republicanos (Teófilo Braga, Afonso Costa, Bernardino Machado) não eram muito diferentes. O povo continuava àparte, sorumbático, manhoso e desconfiado.

Quando, há tempos, comecei a folhear a Peste de Albert Camus, lembrei-me de que quando era jovem ter lido os seus livros da juventude e de que como se divertiam nas praias de Argel com o cheiro das flores das laranjeiras. Mas não encontrei, ou terá sido sonho meu. Em vez disso, apareceu-me uma descrição da velhice que me encantou e que desejo compartilhar com os meus leitores.
“ Envelhecer é o único meio de viver muito tempo (…) o que mais me atormenta em relação às tolices da minha juventude é não havê-las cometido e sim não voltar a cometê-las.
Envelhecer é passar da paixão para a compaixão…a maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade como aquela que se usufruía quando se era menino”.

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