Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Respondemos à chamada

Trade-offs

Conta o Leitor

2011-09-13 às 06h00

Escritor

Ana Maria Pires

No último Sábado do passado mês de Julho, os antigos alunos da década de 70 do então Liceu Nacional de Portimão reuniram-se pela primeira vez num jantar convívio pensado, planeado e levado a efeito por um grupo desses mesmos alunos.
Certamente quando pensaram no assunto e decidiram levar a ideia por diante não lhes passou pela cabeça que este encontro viria a transformar-se no tremendo acontecimento que deveras foi.

Através do boca a boca, das redes sociais, de amigos e conhecidos, a notícia espalhou-se de tal forma que no dia do jantar ali estivemos mais de mil pessoas.
Se é certo que muitos continuaram sempre a viver onde já moravam naquela época e de alguma forma a contactar-se ou, pelo menos, a saber uns dos outros, não o é menos de que grande foi a quantidade de nós que levaram os seus destinos por outras terras.

Eu fui propositadamente de Braga. Muitos outros foram de sítios igualmente distantes.
Obviamente que inicialmente a principal sensação para a maioria foi a de que estamos “velhos”, realmente todos os que andavam no liceu naquela época têm agora cerca de 50 anos - e aparentam-nos.

A vida não foi fácil para muitos de nós; não costuma sê-lo, é certo, mas nós somos a geração que se auto-denomina de “entalada”. É verdade. Somos uma fatia entre duas épocas: antes do 25 de Abril e depois do 25 de Abril. Os mais velhos que nós, incluindo aqueles que já andavam na Faculdade, pertencem ao antes e os mais novos nunca perceberão o que isso era, porque quando a mudança aconteceu eles ainda não se tinham dado bem conta do mundo e da sociedade em que viviam.

Nós não: num dia estávamos todos separados, meninos para um lado meninas para o outro, e vestidinhos de batas brancas sem as quais nem nos era permitido entrar na escola e no dia seguinte andávamos aos gritos e aos pulos no meio da rua, a tentar compreender e assimilar o que se estava a passar, mas numa felicidade e alegria absolutas.

O ensino virou-se do avesso. As passagens de ano foram durante algum tempo administrativas, o país circulava entre a euforia e o caos e nós continuámos a atravessar a adolescência e a juventude. Anos depois, quando chegámos ao mercado de trabalho, o país estava mergulhado na mais profunda crise de que tenho memória e os empregos disponíveis, sobretudo no Estado, destinavam-se exclusivamente aos retornados.

Trinta e seis anos depois do 25 de Abril, a campainha tocou de novo para nós e, saídos de toda a parte, os antigos alunos responderam à chamada.
Ali estivemos numa noite má-gica em que a única sombra que se sentiu foi a dos muitos colegas que já cá não estão. Alguns saídos da vida por vontade própria.

Inicialmente foi um bocado confuso: lembrávamo-nos dos nomes mas não das caras ou reconhecíamos vagamente as caras sem conseguir associar-lhes os nomes.
Depois, lentamente, todos acabámos por reencontrar uma boa parte daqueles a que à época já éramos mais chegados e distribuímo-nos mais ou menos em grupos.
Foi uma noite maravilhosa que cada um terá vivido de diferentes formas.
Não tenho palavras para descrever as emoções que senti e vivi.

Os antigos professores, os que ainda são vivos, também ali estiveram e foi grande a alegria do reencontro com os seus meninos. Passados todos estes anos, não são assim tão mais velhos do que nós, como eram naquela época.
Houve música (tocada pelos nossos antigos colegas das bandas de garagem que ali se reuniram), houve rábulas (também encenadas e interpretadas por eles), houve muita beleza.
Com o passar das horas, no nosso recreio que já não é nosso, as recordações foram aflorando à memória e as emoções à flor da pele.

Ali vivemos uma boa parte dos dias da nossa juventude, ali experimentámos e descobrimos muitas coisas pela primeira vez: um palpitar de coração, um beijo rápido, mãos que se entrelaçam noutras mãos descobrindo novos significados no toque.

Ali estávamos naquela quinta-feira de Abril em 1974 quando aconteceu a revolução. Às 8 horas e 35 minutos a campainha tocou como sempre para o primeiro tempo. Ao longo do dia continuou a tocar, mas aquela primeira aula foi a única que ainda tivemos nesse dia. A partir daí começou a aventura mais empolgante e extraordinária das nossas vidas até ao momento e provavelmente até hoje.

O 25 de Abril foi muito evocado na nossa festa. Todas as rábulas foram sobre o “antes” ou o “depois”, todas as músicas, todas as recordações têm carimbo de data porque o que era possível a 24 já não o era a 26, e vice-versa.

Foi a primeira vez, em 36 anos que vi o 25 de Abril ser festejado e comemorado apenas com o agradecimento e reconhecimento por tudo o que nos proporcionou. Não houve sombra de política nem de interesses públicos ou privados; apenas nós que vi-vemos o antes, o durante e o depois, a comemorar a nossa vida, a nossa juventude e, sem dar por isso, o 25 de Abril.
Nós merecíamos isto!

A noite avançava e o tempo recuava dentro de nós. A dada altura, mesmo não nos conhecendo já na maioria dos casos, todos estávamos em estado de reconhecimento global e para onde quer que se olhasse, os adultos ali presentes estavam habitados pelos meninos e meninas que um dia foram. Colegas, amigos, professores, funcionários, os nossos corações batiam noutra época.
Festejámos a nossa juventude, a nossa vida, a liberdade que nos foi oferecida e pela qual não tivemos que lutar.

Estou certa de que pelo menos alguns dos colegas que puseram termo à vida, teriam talvez repensado a sua decisão se no momento de o fazerem soubessem que tinham no futuro uma noite como esta à sua espera. Porque a vida tem sempre algo de bom para nos dar e surpreender. Por-que vale a pena ser vivida.
No dia 31 de Julho a campainha tocou de novo no Liceu Nacional de Portimão. E de todo o país, os alunos da geração de 70 responderam uma vez mais à chamada.
A todos quantos tornaram possível uma noite tão maravilhosa, o meu muito obrigada.

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