Correio do Minho

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Respeito pela república

O problema do vira-lata!

Ideias

2015-10-05 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

O “hoje” em que escrevo, não é o “hoje” pós-eleitoral que haverá com certeza de açambarcar cem por cento das atenções e opiniões do país mediático no dia 05 de Outubro. Dado que escrevo com 72 horas de antecedência, não me é possível saber no meu “hoje” quais serão os resultados eleitorais que estarão no “hoje” da publicação deste texto. Mas uma coisa sei. Sei que o Presidente da República (PR) não vai comparecer nas cerimónias … da República. Sim, esse regime de aquisição e exercício do poder político, implantado no dia 05 de Outubro de 1910 e que tem no PR o seu mais alto representante.

A não-ida do PR às cerimónias de comemoração da implantação da República é relevante? Não. Não é o fim do mundo, e dispensa-se bem o trabalho de hastear a bandeira nacional de pernas para o ar.
O discurso do PR fará enorme falta? Também não me parece. Estaríamos agora a falar sobre o que não teria sido dito pelo PR, o que teria ficado subentendido nas suas frases, enfim, estaríamos na linha da exploração de sentidos para a interpretação minimalista que o PR costuma ter do que deve ser o exercício das suas funções de Chefe de Estado.

Mas, ainda assim, não deixa de ser um péssimo exemplo de cidadania. E isto deve incomodar-nos. Deve incomodar-nos que um alto governante fuja a um ato público cheio de simbolismo histórico, com a desculpa de que está em processo de reflexão ou, com a desculpa menos pedante, mas igualmente inconvincente de que está a resguardar-se de eventuais pressões pós-eleições.

Um cidadão que abraça a vida pública, que se entrega ao serviço de um Estado e do seu Povo, não anda a resguardar-se das correntes de ar de potenciais adversidades que possa ter de enfrentar.
Ainda que pareça disparatado, imaginemos o seguinte: e se o pós-eleições calhasse no dia 01 de Dezembro? Ou no dia 10 de Junho? Ou no dia 25 de Abril? O PR também faltaria às cerimónias por estar em … reflexão? Pelos vistos sim.

Nada disto terá importância, se tanto o 5 de Outubro, como qualquer uma das outras datas também não nos merecer grande atenção. Afinal, haverá sempre os que olham o 1.º de Dezembro como uma data que apenas disfarça a cobardia de se ter compactuado com o domínio filipino ao longo de quase 6 décadas, dando uma aura de grandeza a uma vitória afinal apenas possibilitada porque os “espanhóis' andavam mais empenhados em controlar a revolta de Setembro na Catalunha. Para outros, o 25 de Abril também não será mais do que uma data que só interessa a gentes de esquerda.

E para outros, o 10 de Junho encerra apenas uma espécie de revivalismo da linguagem colonial dos tempos em que ainda se falava em orgulho da raça. Bom, neste cenário, a identidade do que somos enquanto Povo, sendo certo que não se esgota nos eventos invocados por estas datas, seria então coisa de pouca monta, que nem valeria a pena ensinar nos manuais escolares. Digamos que ficaria tudo sujeito à perspectiva relativizadora dos olhares singulares: ‘para mim isto é importante, para ti não é, mas “tá-se” bem’.

Isaiah Berlim chamava precisamente a atenção para as confusões entre a aceitação do pluralismo (de ideias, de valores, de visões) e a cedência ao relativismo de tudo, que mais não é do que uma forma acobardada de não assumirmos publicamente nenhum valor. Pluralismo e pluralidade de opiniões sim! Sempre.

Mas relativismo como atitude facilitadora da preguiça de assumir valores, não. Ora, eu tenho para mim que a República implantada a 5 de Outubro de 1910 - com todos os erros, excessos, e frustrações que ela também nos soube trazer - merece, ainda assim, grande respeito. Ora, a não comparência do PR nas cerimónias de comemoração da República, enquadra-se nesse respeito? Para responder, recordo aqui as palavras do próprio PR transmitidas pela Antena 1, em Maio passado, aquando de uma visita de Estado à Noruega: “Interrogado durante esse voo para a Noruega se não poderá ser prejudicial escolher o dia 4 de outubro, já que é a véspera do dia da Implantação da República, o Presidente da República encolheu os ombros, declarando apenas: “já não é feriado”.

Ora aqui está a prova do tipo de respeito que a República lhe merece. Mais, o PR escolheu o 04 de Outubro porque quis. Com excepção da CDU, do que me recordo, que era mais favorável a esta data, os restantes partidos deram ambas como razoáveis, mas no caso do PSD até demonstrou preferencia inicial pela data de setembro. Portanto, Cavaco optou pelo 4 de Outubro não certamente para fazer obséquio ao Partido Comunista mas porque quis, e tanto assim foi, que numa das suas declarações em Julho afirmava: 'E há ainda a campanha eleitoral, pois se não têm cuidado ocorre nas praias' (Antena 1, 21 Julho, por Natália Carvalho), revelando indirectamente a sua preferência por uma data mais tardia, dentro da janela de tempo que então já se discutia entre finais de Setembro e inícios de outubro.

E assim sendo, o que é que Cavaco Silva poderia não saber ainda sobre o dia 5 de Outubro como dia pós-eleições? E, perguntemos ainda, desde quando um político experiente não é capaz de transmitir um discurso suficientemente curto, diplomático, neutro, que se encaixe numa efeméride, ou não é capaz de não responder aos jornalistas? Não é isso feito o tempo todo, de forma descarada nos debates televisivos, nas entrevistas alargadas, até nas conferências de imprensa para as quais os jornalistas são expressamente convidados?

Portanto, o nosso PR já sabia que havia a forte probabilidade de se confrontar com um pós-eleições a 5 de Outubro e isso não pareceu causar-lhe nenhum tipo de ansiedade ou de temor antecipado pela necessidade imaginada de reflexão e ponderação. Se isto não diz do respeito que o PR tem pela República, não sei o que mais o dirá.

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