Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Respeitar e valorizar os portugueses da diáspora

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Escreve quem sabe

2016-06-12 às 06h00

Artur Coimbra

Não há dúvida que Marcelo Rebelo de Sousa colocou a Presidência da República num novo estilo, numa outra dimensão, num registo em muitos casos diametralmente oposto aos seus antecessores, e muito em especial ao misantropo que o precedeu. Obviamente, pelo seu carácter, pela sua diferente forma de estar e de ver a função presidencial e pela sua postura relativamente aos diferentes poderes.

Tem-se revelado felizmente um Presidente inovador, buliçoso, hiperactivo, aberto ao povo, um supremo magistrado com pouca veneração por protocolos anteriores.

Caso paradigmático de uma nova atitude presidencial ocorreu há dois dias no âmbito das celebrações do 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.
Ao contrário do que era norma, Marcelo não fixou as comemorações numa cidade, mas espalhou-as por dois palcos: começaram no “território físico” português, em Lisboa, concretamente no Terreiro do Paço e concluíram no “território espiritual” de Portugal, na capital da emigração, Paris, onde reside e trabalha uma numerosíssima comunidade portuguesa. Cumpriu uma promessa eleitoral e valorizou, simbolicamente, milhões de portugueses espalhados pelo mundo.
Em Lisboa, Marcelo fez o elogio do povo português, “o povo armado e não armado”, que, “nos momentos de crise, quando a pátria é posta à prova”, assumiu o “papel determinante”. Sublinhou ainda o Presidente, elevando a auto-estima dos portugueses e louvando a sua coragem e espírito de sacrifício nos momentos difíceis:
“Foi o povo, a arraia-miúda, quem nos momentos de crise soube compreender os sacrifícios e privações em favor de um futuro mais digno e mais justo. O povo, sempre o povo, a lutar por Portugal. Mesmo quando algumas elites - ou melhor, as que como tal se julgavam - nos falharam, em troca de prebendas vantajosas, de títulos pomposos, meros ouropéis luzidios, de autocontemplações deslumbradas ou simplesmente tiveram medo de ver a realidade e de decidir com visão e sem preconceitos”, sustentou.

Um discurso de um estadista que preferiu condecorar o “heroísmo e a bravura” de seis militares, por se terem destacado no cumprimento de missões no âmbito nacional e internacional, e não oficiais generais, como era uso e costume. Só as elites tinham direito a condecorações presidenciais.

Momento relevante e simbólico deste 10 de Junho foi a deslocação de Marcelo Rebelo de Sousa a Paris, que é comumente intitulada como a segunda cidade portuguesa, numa alusão ao enorme número de emigrantes portugueses que aí residem. Foi, aliás, para homenagear os portugueses que estão “lá fora” e a sua importância que o Presidente da República quis tornar Paris um dos palcos das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
É importante enaltecer o papel que as comunidades portuguesas desempenham por esse mundo além, por manterem Portugal vivo no mundo, enquanto embaixadoras do país e pela sua reforçada ligação à terra-mãe.

Não podemos esquecer que Portugal, pequeno território de 92 000 Km2, com nove séculos de História, deu novos mundos ao mundo, a partir do século XV, com a saga dos Descobrimentos e a conquista de novos horizontes para a Humanidade. As comunidades portuguesas começam a espalhar-se pelos quatro cantos do planeta desde essa altura. Foram-se reforçando com os movimentos migratórios, primeiro para o Brasil e Estados Unidos, nos séculos XVIII e XIX e depois para a Europa, a partir de meados do século passado.

Dessa disseminação da diáspora resulta que hoje os portugueses não são apenas os 10 milhões que povoam o território deste rectângulo à beira mar plantado mas acrescem mais 5 milhões de emigrantes e luso-descendentes espalhados pelo mundo, com especial destaque para as comunidades mais copiosas, do ponto de vista demográfico, quais sejam as dos Estados Unidos, França e Brasil.

Bem andou o Chefe de Estado ao consagrar, pelo seu gesto, os portugueses espalhados pelo mundo, valorizando o seu papel e retirando do esquecimento dos nacionais os nossos patrícios que a sorte e a miséria obrigaram a abandonar o rincão natal.

Ao levar as comemorações do Dia de Portugal para Paris, pela primeira vez, Marcelo quis evidenciar manifestar que os portugueses que estão fora do país são tão portugueses como os que jamais abandonaram a sua terra. Seria importante, já agora, quer fossem retiradas pelo Parlamento e Governo outras ilações, como a urgência de aumentar o número de deputados pela emigração (em 230 deputados em S. Bento, haver apenas uns míseros quatro a representar 5 milhões de portugueses da diáspora, é pouco menos que ridículo e justamente ofensivo…) e o reforço do apoio aos emigrantes espalhados pelos quatro continentes, a nível de embaixadas e consulados, como não se cansam de reivindicar os seus representantes institucionais.
De evidenciar ainda que, na capital francesa, o Presidente Marcelo condecorou cinco emigrantes portugueses, uma luso-descendente e três franceses que se destacaram na comunidade lusa na capital francesa.

Desde logo, os porteiros Margarida de Santos Sousa, Manuela Gonçalves (natural de Fafe), José Gonçalves e Natália Teixeira Syed foram galardoados com o grau de Dama/Cavaleiro da Ordem da Liberdade, por, em 13 de Novembro de 2015, terem aberto os portões dos seus pátios para abrigar os sobreviventes e ajudarem a prestar os primeiros socorros a dezenas de pessoas vítimas dos atentados terroristas do Bataclan.
Mas também o fotógrafo que mais retratou os bairros de lata portugueses em França nos anos 60 e 70, nascido no Haiti há 89 anos, Gérald Bloncourt, que recebeu o título de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique; Joaquim Silva Sousa, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Paris, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Mérito, o mesmo grau atribuído ao empresário Valdemar Francisco, de 62 anos, que ajudou a construir um monumento de homenagem a um antigo autarca francês pela ajuda prestada aos imigrantes portugueses no bairro de lata de Champigny. Finalmente, Louis Talamoni, antigo autarca de Champigny, condecorado a título póstumo com o grau de comendador da Ordem da Liberdade, por 'durante largos anos, a partir de 1956 e até 1972, data da extinção do bidonville ter procurado, com grande determinação e uma inegável coragem, minorar o sofrimento de todos os que viviam no bairro de lata'. O actual Presidente da Câmara de Champigny, Dominique Adenot, recebeu o grau de Comendador da Ordem do Mérito, por 'ter demonstrado um especial interesse e empenho junto da comunidade portuguesa e lusodescendente do município que dirige'.

Perante centenas de emigrantes, ontem mesmo, o Presidente da República voltou a elevar o ego dos portugueses, ao declarar: “verdadeiramente grande país só há um país: é Portugal. Os melhores somos nós. A França é excepcional, mas nós somos muito melhores, mas muito melhores - no futebol, na ciência, nas artes, na cultura, nas empresas, no trabalho'.

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