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Relíquias livrescas

Vida e Obra de Paulo Freire – Parte III

Relíquias livrescas

Voz aos Escritores

2023-04-21 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

A poesia
viaja pelos montes e fragas
sem fim
passa o tempo a fluir a doce essência do perfume das urzes, do rosmaninho e do jasmim.
A poesia
desperta,
espreguiça,
inquieta
desnuda a sua pele plácida
e banha-se no aroma alegre
e garrido do horizonte
como quem espera
que a primavera lhe entre pela janela.
Começo esta crónica por confessar que tenho uma inclinação natural para a poesia. Tudo começara no berço. Era ali que a poesia enchia a minha tenra e angelical alma de criança de luz e sonoridade. Eram essas melodias que embalavam os meus sonhos pueris. Mesmo a dormir, os meus lábios sorriam com o “toc, toc, toc” da Moleirinha de Guerra Junqueiro.
Mais tarde, já na escola primária, tive, então, a maior das alegrias quando descobri, no livro da 4.ª classe, esse mesmo poema. Como eu gostava de o cantarolar! “Pela estrada plana toc, toc, toc/ Guia o jumentinho uma velhinha errante/ Como vão ligeiros, ambos a reboque, /Antes que anoiteça, toc, toc, toc/ A velhinha atrás, o jumentinho adiante!...”
Acordar com o poema “Os ninhos” de Afonso Lopes Vieira e dizê-lo de cor, vezes sem fim, é um exercício nostálgico, mas muito tranquilizador:
Os passarinhos
Tão engraçados,
Fazem os ninhos
Com mil cuidados. […]
Nunca se faça
Mal a um ninho,
À linda graça
De um passarinho! […]
É, contudo, com Torga que esta paixão pela poesia se adensa a partir do singelo e tão belo poema: "Sei um ninho./E o ninho tem um ovo./E o ovo, redondinho, /Tem lá dentro um passarinho Novo./ Mas escusam de me atentar:/Nem o tiro, nem o ensino./Quero ser um bom menino/E guardar/Este segredo comigo./E ter depois um amigo/Que faça o pino/A voar..."
São relíquias que ficam e acariciam as minhas memórias. São poemas que me lambem a alma e embalam-me docemente na infância. É um amor que jamais se extingue. É como a certificação de que aquilo que ouvi em silêncio afinal era verdade. Tornar audível aquilo que eu já tinha sentido em silêncio. Não exagero se disser que, aos meus olhos, o que sinto é um verdadeiro louvor à saudade de alma portuguesa. É com esse aroma que, hoje, embriago os meus dias.
Tal como para Torga, também para mim a terra (berço) é o sal e a energia vital. É esse imaginário o lugar de recuperar energias, de buscar consolo quando das contrariedades e o lugar de confidências e de sinceridade absoluta, que está sempre presente: […] “Encolhida num burel de fragas, tosca e humilde, ao revê-la apeteceu-me beijá-la”.
E o leitor? Lembra-se do primeiro livro que leu? Ainda tem presente na memória o que a história gravada naquelas páginas despertou nos seus sentidos?
Certamente que sim. Como se poderia esquecer aquela sensação de ser transportado para uma realidade diferente, de partir à aventura com a nossa personagem predileta?
Um livro é sempre especial. É uma candeia que nos alumia na busca constante do conhecimento, a alavanca para memórias reconfortantes, que serão nossas fiéis companheiras de jornada.
O Dia Mundial do Livro está quase aí, afirmando-se cada vez mais como uma força motriz que nos impele a viajar por lugares extraordinários e a conhecer personagens inesquecíveis. É um misto de serenidade e inquietude, uma experiência estranhamente libertadora. Comungando das palavras de Luiz Sommerville, sublinho que
a minha carne é feita de livros...
e rogo a quem os abriu
o milagre de jamais os fechar...
Por isso, pegue num livro e deixe-se levar…?

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