Correio do Minho

Braga, sábado

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Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2013-01-18 às 06h00

Margarida Proença

Com alguma curiosidade, vi no outro dia o programa de um conhecido apresentador norte- americano sobre Lisboa. Tem alguma piada, a abordagem é diferente de tantos outros programas sobre viagens ou culinária, e conseguiu uma audiência enorme em todo o mundo.

Aliás, em 2011, a série recebeu um Emmy pela melhor cinematografia em programas que não são de ficção. O modelo é simples: Anthony Bourdain, é o nome do apresentador, visita os mais variados locais, onde é recebido por personalidades que lhe apresentam a cultura e a gastronomia do país. Funciona bem, a mistura de restaurantes populares e de alta culinária é interessante, e faz marketing global das cidades e dos países.

Lisboa é inegavelmente uma cidade muito bonita, com uma luz notável, ainda com alguma autenticidade que a distingue positivamente; quanto á culinária portuguesa, a sua qualidade e diversidade é reconhecida . Mas no final ficou-me a sensação de oportunidade perdida, de um país que continua a viver no passado, quase paralisado pelo pessimismo e pela dor. Do tempo do Salazar á crise atual, dos preços que vão subindo aos regulamentos comunitários, as opiniões expressas por boa parte dos portugueses que intervieram deixaram perpassar a imagem de um país parado, preso no tempo : onde a culpa é sempre dos “outros”, sejam eles quem forem. Se fosse um grande investidor internacional, tenho dúvidas se tomaria a decisão de investir aqui depois do programa.

De uma forma um tanto esquizofrénica quase, Portugal é e não é isto já. Mudamos imenso nos últimos 50 anos, mas não gostamos de mudanças. Ou melhor, da mudança. Ou então, se tiver mesmo de ser, que mude o vizinho; o quintal dele está mais a jeito… e já agora, a culpa deve ser dele, porque não tinha nada de ter um quintal melhor que o nosso

Não; vivemos hoje uma crise gravíssima, para a qual ainda não antevê uma resolução positiva, mas o capital humano em termos educacionais começa a ser importante. Mesmo com a taxa de desemprego elevada, mesmo com jovens a procurarem oportunidades onde existem, o mercado de trabalho tem em Portugal hoje características que nunca teve. As infraestruturas existem, a rede hospitalar e educacional também, as prestações sociais são não negligenciáveis, a utilização da internet generalizou-se, por aí fora; vivemos mais tempo e muito melhor. E tudo isto foi possível porque pertencemos à União Europeia e porque houve crescimento económico, e porque o modelo social europeu - a que aliás chegamos atrasados - sublinhava a intervenção significativa do Estado na economia , acreditando que corrigia as falhas do mercado por si. E na verdade, até o fez durante bastante tempo. Mas depois tornou-se claro que era necessário garantir a sustentabilidade das finanças públicas, que as receitas e as despesas têm de andar adequadas aquilo que o país vai produzindo.

Não gostamos de mudar, é certo, e talvez por isso fomos percorrendo os caminhos por vezes mais fáceis. Desde finais da década de setenta até quase ao início dos anos noventa, fomos desvalorizando a moeda; e claro está as nossas exportações aumentaram, tornando aparentemente o país cada vez mais competitivo. Só que a produtividade mantinha-se a voar baixinho, bem como os métodos e a organização do trabalho, as relações de trabalho, a taxa de absenteísmo, o défice no marketing, o foco exagerado em alguns mercados , etc.; depois vieram os fundos comunitários e a expansão do investimento direto estrangeiro, as privatizações na década de noventa e depois a queda das taxas de juro.

Li provavelmente como a maior parte de quem o fez o relatório do FMI sobre opções de reforma de despesas do estado, um pouco na diagonal. O problema não é o relatório, que até me parece estar razoavelmente bem feito, e com dados que contam uma história que já tem barbas brancas de tão bem conhecida. Os principais tipos de despesa são a defesa, segurança e ordem pública, a saúde, a educação e a proteção social, a despesa primária aumentou de forma significativa entre 1995 e 2005, e o nível de despesa público em percentagem do PIB era, em 2011, mais elevado do que em muitos países mais ricos que o nosso. Por outro lado, apesar das melhorias na saúde, a eficiência com que fornecemos bens e serviços às populações continua a ser relativamente baixa, e o conceito de economia de escala na produção de serviços públicos é malquisto.

O problema é que as projeções do Banco de Portugal, agora publicadas, apontam para uma contração na ordem dos 1,9% do PIB este ano e um agravamento do défice de quase 0,4% o que pode significar uma derrapagem na execução orçamental tanto maior se o Tribunal Constitucional declarar alguma inconstitucionalidade. O problema é que vão mesmo ter de ser feitas escolhas.

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