Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Regrar a implantação da distribuição alimentar

Granjear futuro

Escreve quem sabe

2017-01-13 às 06h00

Rui Marques Rui Marques

Nos últimos dias tem sido veiculada na imprensa local a possibilidade de virem a abrir 4 a 6 novos supermercados no concelho de Braga. Os interessados, o grupo alemão “Aldi” e a cadeia espanhola “Mercadona”, ponderam abrir 2 a 3 supermercados cada um, segundo confirmou o Presidente da Câmara Municipal de Braga à margem da última reunião do executivo.
Relembre-se que esta informação surge na sequência da abertura recente de 3 novos supermercados associados à insígnia “Continente”, o que significa que, num curto espaço de tempo, a já extensíssima oferta comercial de distribuição alimentar no concelho de Braga poderá vir a contar com 9 novos estabelecimentos de dimensão relevante.
Evidentemente, esta notícia gera uma enorme preocupação junto dos operadores instalados e carece de uma análise aprofundada acerca dos impactos da abertura destas novas unidades.
A análise não é tão simples quanto possa parecer. Como se sabe, a decisão de autorizar ou não a instalação de novas grandes superfícies compete exclusivamente à Câmara Municipal que, naturalmente, fará a sua avaliação à luz da política de desenvolvimento económico que preconiza para o Município.
É óbvio que, no curto prazo, ou melhor, no imediato, a abertura de novas grandes superfícies gerará investimento e novos postos de trabalho. Poderá até gerar processos de reabilitação urbana de algumas áreas deprimidas.
É igualmente, inquestionável, que estas manifestações de interesse, refletem a imagem positiva que Braga hoje dispõe no panorama nacional. Braga está na moda. E isso é um excelente indicador.
Mas é óbvio que, não tendo crescido a população de Braga na última década de forma significativa, não tendo as necessidades de consumo sofrido grandes alterações - não comemos o dobro do que comíamos há 2 anos, embora o cabaz possa ter sofrido ligeiras alterações -, a abertura de novas unidades irá gerar um efeito de canibalização entre os concorrentes.
As pessoas consumirão sensivelmente o mesmo, mas diluirão as suas compras por mais operadores. As novas unidades para ganharem quota de mercado irão consegui-lo à custa da perda de negócios dos operadores instalados. Isto levará, inevitavelmente, a que, nalguns casos, a perda de negócio implique que alguns operadores não consigam atingir um nível de vendas que lhes permita ser sustentáveis. O que acontecerá a estes operadores? Provavelmente encerrarão. E, atenção, isto acontecerá, inclusivamente, entre operadores de grande dimensão.
O panorama para os pequenos empresários locais do setor alimentar é ainda mais negro. Porque a tendência que se tem vindo a verificar no setor, em Portugal como no resto da Europa, é que os grandes players, nacionais e internacionais, querem agora ocupar o espaço que até aqui era ocupado pelo pequeno comércio - a proximidade.
Apostam em unidades mais pequenas - supermercados - em vez de hipers; apostam em localizações estratégicas, na malha densa das cidades junto a grandes aglomerados populacionais, de preferência servidos de boas acessibilidades, em detrimento da periferia; e, pela sua enorme capacidade de investimento, criam condições de estacionamento extraordinárias para servir de apoio ao seu negócio, pelo que, é lógico que, num ambiente de concorrência absolutamente hostil, quem vai tombar primeiro vão ser os pequenos comerciantes, os empresários locais.
Impõe-se, por isso, que o Município tenha uma política clara, e do conhecimento da sociedade, acerca deste tipo de licenciamentos.
Queremos uma cidade exclusivamente com insígnias nacionais e internacionais a degladiarem-se pela preferência dos Bracarenses? Ou queremos uma cidade em que empresários locais, de pequena dimensão, conseguem co-existir com os players internacionais. Eu acredito que todas as cidades preferirão um modelo de convivência sã em entre micro e pequenas e as grandes empresas, entre operadores locais e operadores nacionais e internacionais. Mas, para isso, tem de haver uma política regrante do Município relativamente ao licenciamento de grandes superfícies que atenda aos impactos sociais e económicos que gerará a instalação de novas unidades. É preciso ter a coragem de dizer basta. De dizer que, face à oferta atual, não faz sentido a implantação de mais unidades. Mesmo que seja em prejuízo dos cofres municipais ao nível da arrecadação de receita oriunda das licenças atribuídas. É preciso ter consciência que o prejuízo social e económico causado pelo encerramento de unidades locais pode ser muito mais relevante do que o benefício que decorra da instalação de unidades de grande dimensão.
Não querendo sugerir que se regresse ao passado ao nível dos processos de autorização da instalação de grandes superfícies, as Câmaras têm todas as condições para o fazer bem, parece-me que seria extraordinariamente importante que se pudessem envolver os parceiros sociais, nomeadamente as associações empresariais, através da emissão de pareceres consultivos, de forma a que o executivo municipal possa obter mais sensibilidades acerca do impacto da abertura de novas unidades, que não apenas a do promotor, e assim tomar a decisão mais justa e adequada a cada pedido.

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